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A vida pessoal de Gilberto Freyre e João Cabral de Melo Neto

Publicado: Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 16h17 | Última atualização em Sexta, 06 de Dezembro de 2019, 12h53 | Acessos: 646

No segundo dia do Seminário Internacional Casa-Grande Severina, nesta quinta-feira (5), jornalistas relataram conteúdos de entrevistas e conversas que tiveram com escritores. Tarde contou com lançamentos e exibição da animação 3D de Morte e Vida Severina, no campus do Derby da Fundaj. Evento foi encerrado com exposição do professor Ivan Marques, que lançará, no próximo ano, a primeira biografia de João Cabral de Melo Neto

Conversas sobre a vida dos escritores, exposições, palestras, oficinas, lançamento de livro e exibição de filmes rechearam o segundo dia do Seminário Internacional Casa-Grande Severina: 120 anos de Gilberto Freyre, 100 anos de João Cabral de Melo Neto. Nesta quinta-feira (5), quem participou do evento, no campus do Derby da Fundaj, pôde prestigiar relatos da vida íntima dos dois escritores homenageados e entender melhor sobre suas obras, por meio de uma variedade de atividades.   

“Os meus encontros com Gilberto e João, entre licores, aspirinas e cafés” foi a temática da primeira palestra do dia. Com mediação do jornalista Marcelo Abreu, o escritor e também jornalista Xico Sá, relatou, de maneira descontraída, sobre suas experiências com os escritores. “Fiz questão de ter essa preocupação: a de marcar a figura de João Cabral de Melo Neto. Se ele passasse meia hora no Recife, eu estaria lá para testemunhar aquela obra viva”, afirmou. 

Durante seu tempo de exposição, o jornalista também comentou sobre o prestígio de Gilberto Freyre. “No começo dos anos 80 era quase uma obrigação ouvi-lo sobre qualquer assunto, a opinião dele era muito importante”, frisou. Como referência de conhecimento do autor, Xico citou a obra: Modos de homem & modas de mulher (1986), de Freyre.

Encerrada a palestra, foi a vez da conferência “A Pedra que Lateja: considerado um poeta racional de versos de pedra, João Cabral arrasta emoções fortes em sua poesia”, ministrada pelo escritor José Castello e mediada, novamente, pelo jornalista Marcelo Abreu. “Tive a sorte de conviver intensamente durante dois anos com João Cabral de Melo Neto. Vou contar para vocês sobre essa experiência de convivência pessoal com ele”, começou Castello.

O escritor do ensaio biográfico de João Cabral de Melo Neto, “O Homem sem Alma”, contou ao público sobre o período em que foi convidado para ter conversas quinzenais com o poeta. “Eu pedi para gravar tudo, mas quando desligava o gravador, surgia na minha frente o homem — sem a formalidade de grande poeta — com as dificuldades emocionais da velhice”, afirmou. Ao final da sua fala, quando questionado sobre as 23 fitas de áudios, gravadas durante as entrevistas com João Cabral de Melo Neto, o escritor afirmou: “Por esse ser um material muito rico, pensando em preservá-lo, tenho a intenção de doar à Fundação Joaquim Nabuco”.

Tarde

A programação vespertina do seminário teve início com a mesa-redonda sobre Gilberto Freyre em perspectiva comparada. A exposição contou com as presenças da diretora da Biblioteca Oliveira Lima, em Washington (EUA), Nathalia Henrich, e do professor de Literatura Comparada da UERJ, João Cezar de Castro Rocha. Em sua fala, Henrich construiu um panorama da relação entre Freyre e Oliveira Lima, destacando a relação próxima de ambos, presente na biografia do diplomata, que faleceu nos Estados Unidos aos 60 anos. 

“É preciso pensar que essas duas vidas e trajetórias vão paralelas a um ponto e se entrecruzam em diferentes momentos, embora tenham uma diferença grande de idade e pertençam eles a gerações diferentes”, reflete Nathalia, ao destacar que  Manuel Oliveira Lima teria sido mestre de Freyre nos anos em que passou nos Estados Unidos, o que aponta como determinante para as direções escolhidas pelo sociólogo. Mais tarde, conta, Gilberto teria sido imprescindível para a reinserção de Manuel na sociedade intelectual recifense, cidade natal do diplomata. “Ou seja, essas dinâmicas de quem é o mestre e quem é o discípulo vão se tornando cada vez mais borradas e com limites mais fluidos”, conclui.

Em seguida, João Cezar relembra o primeiro contato que teve com Casa-Grande & Senzala, quando ainda estudante de História, para adentrar a relação das escritas de Gilberto Freyre e do escritor paraibano José Lins do Rego. O professor conta que ambos viveram uma amizade literária, que se deu início em 1923, decisivo para o futuro autor de Menino de Engenho (1932). “O primeiro manuscrito de Lins do Rego não seria esta obra, mas um estudo biográfico acerca do amigo Freyre”, destaca, ao mencionar a biografia de Freyre escrita por Diogo de Melo Meneses.

Ao final de sua fala, Castro Rocha defendeu que Freyre é um escritor literário e que em suas obras ele mesmo se autodeclara assim. “Toda vez que me refiro a Gilberto Freyre como escritor literário estou recorrendo a ele mesmo. Sua percepção dessa definição implica uma junção entre uma prosa que tem pretensão científica sem, contudo, deixar de ser artística”, disse, ao contar dos diversos momentos em que o autor realizou essa declaração.

No andar térreo do campus Derby, a programação não se restringiu aos adultos. Simultaneamente, ao longo da tarde, meninos e meninas do Movimento Pró-Criança participaram da oficina em torno dos homenageados. Realizada na Sala de Leitura, os pequenos puderam produzir seus próprios exemplares de “Livrinhos de Artista”. Em seguida, o ator Carlos Mesquita, junto à Literatrupe, encenou trechos das obras de Freyre e João Cabral.

O lançamento infanto-juvenil foi assinado pelo historiador Felipe Neves. Com organização de Ana Carmen Palhares, “O Rio Das Capivaras” chama atenção pelas ilustrações texturizadas que falam sobre o Rio Capibaribe. “Nos baseamos na obra de João Cabral de Melo Neto, “O Cão Sem Plumas”, que fala sobre esse importante rio que corta o Estado. A partir de uma releitura visual, apresentamos o curso dele [Capibaribe] desde a nascente, passando pela foz, até chegar ao leito. Assim como no poema, o Capibaribe é um cão sem plumas, sofrendo de barriga vazia e macio como a língua de um cachorro”, acrescentou o autor.

Em sua conferência “Gilberto Freyre, plural e confessional”, a escritora Fátima Quintas apresentou a minibiografia do autor lançada, neste ano, pelo Instituto Amaro Quintas. O ensaio apresenta detalhes íntimos do autor, das guloseimas prediletas ao relato da primeira experiência sexual com mulher, extraída de seu diário. “Toda sua obra brota de um tronco intimista. Casa-Grande e Senzala representa um homem a se autobiografar através de seu próprio povo, de maneira pessoal e coletiva”, aponta Fátima, ao lembrar que “olhar pelo buraco da fechadura” era para o autor um método. “Gilberto queria dos outros o que há, de si, neles”, reflete.

A escritora destacou, ainda, a habilidade do sociólogo em contemporizar os antagonismos. “Gilberto tinha horror a conceitos. Dizia que eram de uma pobreza enorme. Por isso, era contra fanatismos.” Recordou, também, o episódio em que a casa dos pais de Freyre foi incendiada, durante a Revolução de 1930, em Pernambuco. O autor teria sido marcado pelo crime, que “refletiu na sua pessoa e no seu pensamento”. Para ele, a história era um passado que se estuda tocando em nervos. Desta ideia, desenvolveu um estudo da saudade como método. Ao fim, a escritora contemplou o público com exemplares do ensaio já citado. 

Na sequência, o diretor de Memória, Educação, Cultura e Arte, Mário Hélio, recebeu o cartunista e ilustrador, Miguel Falcão. Juntos, eles lançaram a terceira edição da adaptação para os quadrinhos de Morte e Vida Severina, título de João Cabral. Ao longo de sua fala, Miguel lembrou das referências e desafios enfrentados para a construção da obra. “Tive um mês para entregar tudo. Em Morte e Vida, pensei em fazer algo mais sofisticado. Queria trazer a linguagem gráfica do cordel, mas também um pouco - em minha imensa pretensão - da obra de Gustave Doré. Acabou que fiquei entre o pintor francês e J. Borges”, compartilhou rindo.

Após a conversa, foi exibido o média-metragem homônimo em animação, inspirado no trabalho desenvolvido pelo ilustrador. “A versão ficou fantástica, muito fidedigna ao quadrinho. Posso dizer que sou o principal fã desse filme”, completou Miguel. A animação 3D dá vida e movimento aos personagens deste auto de natal pernambucano, publicado originalmente em 1956. A direção é de Afonso Serpa, com voz de Gero Camilo e trilha sonora de Lucas Santtana. A produção, lançada em 2010, foi uma parceria entre a TV Escola e a Fundação Joaquim Nabuco.

Para encerrar a noite, o professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Ivan Marques, apresentou parte do resultado do levantamento sobre a vida de João Cabral de Melo Neto, na conferência “Os anos de formação”. Ele lançará, em 2020, a primeira biografia de Melo Neto pela editora Todavida.

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