10 DE JANEIRO DE 2014
Clipagem ASCOM
Recife, 10 de janeiro de 2014
:: Jornal do Commercio
Caderno C
Um clássico de 1958 com surpresas
Desde o ano passado que o suspense hiperromântico Um corpo que cai (Vertigo, 1958) substituiu Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) no topo da lista dos melhores filmes de todos tempos, na pesquisa realizada a cada dez anos pelo British Film Institute (BFI). A obra-prima máxima de Alfred Hitchcock derrubou o reinado que o magnífico filme de Orson Welles ostentou por quatro décadas.
A partir deste sábado (11/01), o Cinema da Fundação exibe a nova versão restaurada de Um corpo que cai, apresentada em DCP pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado. Para quem nunca viu, a experiência é de redescoberta. Para quem vai rever, prepara-se para surpresas. O respeito à palheta original de cores e à edição de som – modificada na última restauração, em 1994 –, dessa vez foram restituídas sem máculas.
A Espaço Filmes, de Adhemar Oliveira, é quem distribui o filme no Brasil. Outros clássicos restaurados estão a caminho, informa o curador do Cinema da Fundação, o cineasta Kleber Mendonça Filho.
Em Cannes, a exibição de Um corpo que cai contou com a participação da atriz Kim Novak, prestes a completar 81 anos. Ela tinha 24 anos quando foi convidada para o papel duplo de Madeleine/Judy. Sem dúvida, é seu maior papel no cinema, ao lado de Férias de amor (Picnic, 1955) e Meu dois carinhos (Pal Joey, 1957). No filme de Hitchcock, Kim Novak é a flor da obsessão do policial aposentado John Scottie Ferguson (James Stewart). Mais de um crítico já afirmou que Um corpo que cai é uma história de amor necrófilo. Por causa de seu medo de altura (acrofobia), Scottie é usado por um amigo para encobrir um assassinato. A vítima é Madeleine, a mulher por quem se apaixona e depois carrega a culpa por sua morte. Na trama, retirada de um romance policial francês, o policial ainda conhece Judy, uma vendedora, a quem ele aos poucos vai transformando em uma cópia de Madeleine. Numa das cenas mais sutis e inteligentes do filme, toda ancorada na iluminação, a primeira aparição de Judy vestida de Madeleine é fantasmagórica ao surgir envolta numa penumbra verde. O que vem a seguir é um grande tragédia. Além do toque hitchcockiano reconhecível em cada plano, Um corpo que cai vai um pouco além do estudo psicológico, sempre presente na obra do cineasta inglês, para se concentrar no poder sugestivo da cor.
Caderno C
Uma jornada de insatisfação
Apesar de sair chamuscado pelas confusões em torno de sua simpatia por Adolph Hitler, revelada numa entrevista coletiva no Festival de Cannes, quando apresentou Melancolia (2011), o cineasta dinamarquês Lars Von Trier vive no momento uma espécie de renascimento artístico e pessoal. Depois de um período afundado numa longa crise depressiva, que resultou no agonizante Anticristo ( 2009), o diretor vem mostrando que continua provocador e ambicioso, com ganas para fazer do cinema uma experiência artística profunda. Seu mais novo filme, que anunciou durante a ruidosa permanência em Cannes, estreia pouco mais de dois anos depois do prometido. Poderia ter chegado bem antes, mas sua ambição foi maior. Ninfomaníaca – Parte 1 (Nymphomaniac, 2013), em cartaz a partir de hoje no Cinema da Fundação e no Kinoplex Boa Viagem, é um grande painel sobre a insaciável vida sexual de uma mulher do nosso tempo. Ninfomaníaca Parte 2, de acordo com a distribuidora Califórnia Filmes, está previsto para estrear em março, em data ainda a ser definida. A versão de Ninfomaníaca Parte 1 que chega ao Brasil e em várias partes do mundo não é integral. A versão sem cortes só será exibida no próximo mês, no Festival de Berlim. No futuro, espera-se que Lars Von Trier libere uma versão completa, com cerca de seis horas de duração, possivelmente em DVD e blu-ray. Ao contrário do que se esperava principalmente pelo hype que acompanhou o filme, até com cartazes que mostram os atores em momentos de prazer , Ninfomaníaca não se destaca pelas cenas de sexo explícito, que o próprio diretor fez questão de dizer que foram feitas por dublês ou compostas por efeitos especiais. Logicamente, as imagens incomodam muitos espectadores. Mais do que pornografia, o que Lars Von Trier mostra é uma longa trajetória de vida, tendo a (in)satisfação sexual feminina como mote. Didaticamente, quase como um romancista, o cineasta acompanha a via-crúcis de Joe, uma mulher já madura, que conta suas experiências a um homem que a encontra na rua com sinais de espancamento. Seligman (Stellan Skarsgard) recolhe Joe (Charlotte Gainsbourg) e ouve a história dela, que se considera um ser humano ruim. Dividido em oito longos capítulos expositivos, Lars Von Trier conta detalhadamente a procura de Joe por algo que está além de sua satisfação sexual. Como o filme se desenvolve como um grande flashback, a Joe que vemos na tela é vivida pela jovem atriz inglesa Stacy Martin, quase uma versão de Jane Birkin, a mãe de Charlotte Gainsbourg. Com carinha de anjo e corpo quase sem seios, a primeira transa dela é um desastre, quando se oferece para Jerôme (Shia LaBeouf), um colega de escola. Aparentemente, é essa experiência sem prazer que a leva à procura de um prazer sem fim. Ainda adolescente, ela se junta a amiga B (Sophie Kennedy Clark), que tem como diversão transar com todos os homens possíveis num percurso de uma viagem de trem. Um pouco mais adulta, vai se envolver com diversos homens, mantendo até oito relações por dia. Mas, mesmo com todos essas histórias de alcova, Von Trier não reduz a personagem à condição de máquina sexual. Ao contrário, ele escava outras dimensões da mulher e tenta nos chocar com jogos formais. Em um deles, faz um clipe com pênis de tamanhos e formas variadas. Resta saber, agora, o que ele esconde para a segunda parte de Ninfomaníaca.
Caderno C
Cinema
Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adele). De Abdellatif Kechiche. Com Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos. Cinema da Fundação – 14h40. Drama. 18 anos.
:: Folha de Pernambuco
Programa
Sexo é mau (ou não?)
“Ninfomaníaca” chega sob curiosidade, incluindo cenas explícitas
O sexo. Esta criança que insiste em lembrar a todos sobre os seus instintos. Coma estreia hoje de "Ninfomaníaca: volume 1" (Nymphomaniac, Din., Ale., Fra. Bel., 2013) o dinamarquês Lars Von Trier procura apimentar o assunto usando como ingredientes atores famosos em cenas de sexo explícito e um enredo que não quer exatamente estimular a libido, mas questionar a posição do ser humano diante desse diabo chamado 'sexo'. É, talvez, aí que reside a limitação deste novo trabalho do aclamado diretor de "Melancolia". Nas diversas conversas entre a ninfomaníaca Joe (adulta Charlotte Gainsbourg; jovem Stacy Martin) e o bom senhor Seligman (Stellan Skarsgard), que a resgata da sarjeta, temos uma quase enfadonha terapia informal sobre a culpa ou inocência da mulher viciada em sexo. Erudito que é, Lars Von Trier não resume a resposta para esta questão com a já conhecida e óbvia ação de algumas pessoas que reagem a traumas praticando sexo. Não. Mas o cineasta aqui parece estender tal questão apenas para brincar com as possibilidades de analogias com a busca pelo coito que ele conseguiu listar para o roteiro desta sua nova provocação. "Ninfomaníaca: volume 1" até parece um filme preguiçoso, para quem já elaborou títulos tão sofisticados sobre a conduta humana ("Ondas do Destino") ou sobre a própria natureza humana ("Melancolia"). Isto porque nos cinco capítulos que formam esta primeira parte - O pescador completo; Jerôme; Mrs. H; Delírio; A pequena escola harmônica - sua estrutura segue um esquematismo quase matemático, logo cansativo. Para cada capítulo, Von Trier faz relações entre as histórias contadas por Joe sobre seu passado - sob tom de autopunição - com a percepção generosa feita por Seligman sobre o mesmo assunto. No caso, compara-se os atos da ninfomaníaca à pescaria, ao vício, à composição musical, etc. E a inserção de imagens de arquivo ilustrando cada tema também não ajuda na credibilidade aqui. Apesar da atmosfera pesada, pela qual o excesso de sexo é apresentando como doentio, Von Trier encontra espaço para o humor. Quem conhece a obra do dinamarquês, entretanto, sabe que provavelmente ficará na dúvida se é mesmo para rir alto no cinema. Recheado de sarcasmo e ironia, ele deixa seu "Ninfomaníaca" mais amargo que doce na hora da graça. Com tantas relações entre sexo, culpa, condescendência e piadas malvadas, este primeiro volume de "Ninfomaníaca" parece não levar a lugar nenhum. Ou melhor, leva sim. Mas a diversos lugares e lhe deixa lá, perdido (num mau sentido). De qualquer forma, avaliar um filme, ou melhor, meio-filme, tem dessas coisas que podemos chamar de imprecisão. Um das dúvidas vem com a frase: "O mais importante ingrediente do sexo é o amor". É a única fala dita duas vezes neste volume 1. O cineasta realmente acredita nisso, ou quer apenas nos fazer acreditar insistindo assim? Não interessa, até porque aqui, a cada vez que é dita, a assertiva soa com sentido oposto. Interessaria sim, mas apenas se Von Trier nos desse alguma ideia de onde ele quer chegar. Quem sabe em março?
Guia Folha
Roteirão
Cinema
Ninfomaníaca: volume 1 / de Lars Von trier / Com Charlotte Gainsbourg, Shia Labouf, Stacy Martin, Uma Thurman, Stellan Skarsgard. Cinema da Fundação: 18h10, 20h30 (sex) / 15h40, 20h30 (sab/qui) / 15h10, 17h40 (dom) / 20h30 (ter) / 15h40, 18h (qui).
Um Corpo que Cai / De Alfred Hitchcock / Com James Stewart, Kim Novak. Cinema da Fundação: 18h (sab/qui) / 20h (dom) / 14h50 (ter) / 20h20 (qua). 14 anos.
Azul é a Cor Mais Quente / De Abdellatif Kerchiche. Com Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos. Cinema da Fundação: 14h40 (sex) / 17h10 (ter). 18 anos.
:: Diário de Pernambuco
Viver
O tabu é moda
O polêmico Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, é um dos quatro filmes sobre sexualidade em cartaz
Quatro filmes que estão em cartaz ao mesmo tempo nos cinemas retratam a iniciação sexual de mulheres na adolescência. Totalmente diferentes entre si, todos eles são dirigidos por homens: Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, Confissões de adolescente, de Daniel Filho, Jovem e bela, de François Ozon, e Azul é a cor mais quente, de Abdellatif Kechiche.
Enquanto Confissões de adolescente retrata o sexo como uma coisa engraçada, com cenas que beiram o besteirol e nudez parcial (a atriz Malu Rodrigues mostra os seios), Ninfomaníaca aborda o assunto com tom perverso e pornografia explícita. Azul é a cor mais quente, que relaciona a sexualidade ao amor, foi proibido para menores de 18 anos, enquanto Jovem e bela, cuja personagem principal é uma prostituta, ganhou classificação indicativa de 16 anos. Esses contrastes e contradições sugerem que o assunto ainda é tabu.
O tema é delicado e aponta para diversos caminhos de abordagem e possibilidades de interpretação tanto em relação ao contexto de cada personagem quanto à postura ética dos cineastas. Não é uma discussão nova, pois já rendeu clássicos polêmicos como A última sessão de cinema (1971), de Peter Bogdanovich, com Cybill Shepherd no papel da menina que descobre a sexualidade entre homens jovens e adultos.
Von Trier induz a um julgamento negativo, enquanto Ozon procura apresentar vários pontos de vista para tentar justificar o interesse da protagonista de Jovem e bela pela prostituição e deixar o espectador avaliar as motivações dela. Kechiche adota postura mais romântica e parece mais interessado em contar uma história de amor em que o sexo surge de forma natural, apesar de o público não estar acostumado a cena tão explícitas (a polêmica surge dos valores morais da plateia e não no filme em si). Já Daniel Filho tenta ser educativo e construtivo, mas cai na previsibilidade, superficialidade e banalização em nome de um entretenimento fácil.
Crítica
Apesar da grande expectativa, Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars Von Trier, polêmico antes mesmo de ser mostrado, não necessariamente deixará os espectadores chocados ou excitados. As cenas de sexo são tão explicadas pelos diálogos e recebem tantas interferências gráficas didáticas (números, letreiros, imagens metafóricas) que os movimentos corporais perdem a força e as sensações instintivas ficam prejudicadas.
Como aponta o título, esse é o primeiro episódio de uma obra maior, que se completará no Volume 2 (em março). Conclusões definitivas só poderão ser definidas diante da obra completa, mas isso não impede a avaliação dos procedimentos estéticos adotados já nas duas horas que estão nas telas.
Ninfomaníaca: Volume 1 concentra-se na iniciação sexual da personagem Joe, que perde a virgindade precocemente e passa a fazer sexo com uma quantidade de homens numerosa o suficiente para classificá-la como uma viciada. Tudo é narrado pela própria Joe já adulta a um estranho. Na discussão, o sexo é associado ao pecado e à culpa, usado como uma arma pelas mulheres.
Ninfomaníaca
Personagem com sexualidade iniciante: Joe (15 anos). Atriz: Stacy Martin (23 anos*). Nudez: Completa com sexo explícito (homens e mulheres). Motivação sexual: Perversão, prazer e amor. Direção: Lars Von Trier. Classificação indicativa: 18 anos.
Azul é a cor mais quente
Personagem com sexualidade iniciante: Adèle (17 anos). Atriz: Adèle Exarchopoulos (20 anos*). Nudez: Completa com sexo explícito (feminino). Motivação sexual: Amor. Direção: Abdellatif Kechiche. Classificação indicativa: 18 anos.
Jovem e bela
Personagem com sexualidade iniciante: Isabelle (17 anos). Atriz: Marine Vacth (23 anos*). Nudez: Completa (feminina). Motivação sexual: Curiosidade e aprendizado por meio da prostituição. Direção: François Ozon. Classificação indicativa: 16 anos.
Confissões de adolescente
Personagem com sexualidade iniciante: Alice (16 anos). Atriz: Malu Rodrigues (20 anos*). Nudez: Parcial. Motivação sexual: Curiosidade, prazer, diversão, amor e insistência do namorado. Direção: Daniel Filho. Classificação indicativa: 12 anos.
Viver
Cinema
Vertigo, um corpo que cai – detetive com medo de altura é desafiado a seguir a mulher que só anda por lugares altos. 14 anos. Cinema da Fundação. 14h50 (ter), 18h (sab, qui), 20h (dom), 20h20 (qua).
Ninfomaníaca – Mulher é encontrada num beco por um homem mais velho que a leva para casa e escuta suas aventuras sexuais. 18 anos. Cinema da Fundação. 15h10 (dom), 15h40 (sab, qua, qui), 17h40, 18h (qua), 18h10 (sex), 17h, 17h40 (dom), 20h30 (exceto dom, seg e qua).
Azul é a cor mais quente – Garota de 15 anos se apaixona por universitária de cabelos azuis. 18 anos. Cinema da Fundação. 14h40 (sex), 17h10 (ter).
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