23 DE JUNHO DE 2013
Clipagem ASCOM
Recife, 23 de junho de 2013
:: Jornal do Commercio
Não houve noticias sobre a Fundaj.
:: Folha de Pernambuco
Não houve noticias sobre a Fundaj.
:: Diário de Pernambuco
Opinião
A sociedade tem que protestar
Há duas semanas, no Diario, escrevi sobre a ilusão do PIB. Não é uma descoberta minha. Celso Furtado (1920-2004), por exemplo, em 1974, no importante livro de que ninguém gosta de falar, O Mito do Desenvolvimento Econômico (isso mesmo: o desenvolvimento como mito), chama o PIB de "vaca sagrada dos economistas". Furtado, economista respeitado e admirado, um dos maiores que o Brasil já conheceu, sabia do que estava falando. Todavia, o assunto PIB se converteu numa espécie de evangelho dos políticos, dos meios de comunicação, dos empresários, dos adoradores enfim dessa "vaca sagrada". O que o PIB esconde, no caso brasileiro, porém, é uma realidade de ineficiência, injustiças e procedimentos inumanos.
Todo mundo sabe que perder tempo no trânsito, a um ritmo cada vez maior, é uma via crucis que vai tornando nossa vida um inferno. O que significa perder tempo? É perder vida, pois tempo não é dinheiro, como pensam os adoradores do PIB, mas o recurso mais básico de nossa existência. Ficar preso no trânsito ou em filas absurdas - como a dos bares da abominável Arena de Pernambuco - significa não estar lendo, não estar participando de uma boa conversa, não estar curtindo a família, não estar vivendo.
Muitos alunos meus residentes em Olinda, por exemplo, levam, pelo menos, duas horas para chegar à Cidade Universitária. Minha auxiliar administrativa na Fundação Joaquim Nabuco, gasta 2 horas e 40 minutos do Janga a Apipucos. São mais de 5 horas por dia numa atividade que nada acrescenta à vida dela. Todos nessa situação deixam de contribuir para a vida social. Ficam engessados, digamos 4-5 horas por dia, 20-25 horas por semana, 80-100 horas por mês, 960-1.200 horas por ano. Quanto desperdício de recursos! É uma adição óbvia à ineficiência. O tempo de 1.200 horas, equivalente a 50 dias, não usado para fins úteis (como mais tempo de leitura), corresponde a uma perda de capacidade produtiva. Essa é uma medida do custo de oportunidade (conceito dos economistas) da vida que não foi bem aproveitada.
Pura ineficiência, que se soma a muitas outras no país: infra-estrutura horrorosa; ausência de transporte ferroviário; telefonia precária; urbanização incômoda. Ao mesmo tempo, tudo isso acontece de forma enviesada. Os poderosos, os privilegiados, os abonados de sempre conseguem criar espaços que lhes aumentam o conforto de que já desfrutam. No Recife, hoje, dois fatos ilustram bem isso, a meu ver. Um é a captura feita do Cais José Estelita pelo projeto que ali se implanta de um condomínio de ricaços. O outro é algo semelhante nas margens do Capibaribe, em Apipucos, onde se constroem prédios de luxo cuja concepção ofende a percepção de que beira de rio é para uso de todos: um bem comum. Com isso, os excluídos veem aumentar sua exclusão. Eles são lançados nas periferias imundas, desurbanizadas, sem serviços dignos de nossas cidades. O caráter desumano que se percebe aí é mais um elemento para que se compreenda o mal-estar que a população consciente de sua cidadania não quer mais admitir. Ela se levanta e tem razão em adotar o slogan “Acorda, Brasil”. Que equivale à rejeição de propostas vazias como a do “Espetáculo do Crescimento”.
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