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22 DE MARÇO DE 2013

Publicado: Sexta, 22 de Março de 2013, 10h24 | Última atualização em Quinta, 20 de Dezembro de 2018, 21h24 | Acessos: 649

Clipagem ASCOM
Recife, 22 de março de 2013

 

:: Jornal do Commercio

Caderno C

Filme sai em busca de Brennand

Nascida em Brasília, a cineasta Mariana Brennand Fortes herdou as raízes culturais da família do avô, uma das mais tradicionais de Pernambuco. Ao concluir o curso de cinema na Universidade de Santa Barbara, na Califórnia, no Estados Unidos, em 2002, ela voltou ao Estado com um propósito: fazer um documentário íntimo sobre a vida e a obra do seu tio-avô, o escultor, pintor e escritor Francisco Brennand. Em cartaz desde a semana passada em quatro capitais brasileiras, o longa-metragem avança seu circuito de exibição e estreia hoje no Cinema da Fundação (leia crítica na pagina 6). No ano passado, os 10 anos de trabalho de Mariana foram postos à prova na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme saiu vitorioso com os prêmios Itamaraty, outorgado pelo Ministério do Exterior, e o da crítica, dado pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. De acordo com o júri da Abraccine, o prêmio ao documentário foi justificado pela construção de um imaginário artístico à altura da complexidade do personagem, evitando armadilhas narrativas. Eu tinha consciência da importância artística dele, mas sabia também que seu isolamento ao longo dos anos teve como consequência um distanciamento do público e de sua obra, apesar da visitação da Oficina. Além disso, ele também não é um artista que está sempre na mídia ou no circuito de obras de arte. Por isso, eu achava que um documentário feito para o cinema e lançado comercialmente poderia trazer um olhar de aproximação à sua obra, principalmente ao que se encontra no Recife, relembra Mariana. Para a cineasta, o que diferenciou a realização do filme foi a intimidade que surgiu durante a década que passou em contato com Francisco Brennand. Com o tempo, esse olhar mais penetrante foi se encaminhando para o universo interior dele. A partir de uma relação mútua de confiança e admiração profissional que fomos estabelecendo um pelo outro, isso permitiu que ele se abrisse cada vez comigo, o que determinou o rumo do filme, explica. A minha expectativa é que o documentário gere curiosidade nas pessoas e elas tentem conhecer e pesquisar mais obra dele quem sabe até com o surgimento de outros filmes. A obra de Francisco Brennand é rica e muita vasta, podendo ser explorada de várias maneiras e que tem muito a coisa que ainda não foi descoberta. Essa janela que o documentário abre para o interior dele é um ponto de partida para outros olhares, assegura.

 

 Caderno C

Artista longa-metragem

O documentário Francisco Brennand, de Mariana Brennand Fortes, que estreia hoje no Cinema da Fundação, se propõe uma tarefa hercúlea: transferir para o cinema o universo de um artista plural e gigantesco, cuja obra vem sendo erigida em mais de 60 anos de dedicação exclusiva às artes plásticas e à literatura de cunho confessional (os diários de Brennand, ainda inéditos, costuram o filme de ponta a ponta). Com a intimidade de quem teve acesso irrestrito ao seu objeto, Mariana parte do geral para o particular ao construir o retrato de Francisco Brennand, que completa 86 anos no próximo mês. Ao adentrar uma estrada de barro, em direção à oficina da Várzea, somos levados a fazer uma viagem para um mundo regido por um artista único. Ele é o senhor da cidadela sitiada, como se refere ao complexo de uma antiga olaria, criada pelo pai e que foi transformada em instalação e galeria a partir do início da década de 1970. Para tanto, duas correntes narrativas se superpõem no documentário: enquanto Brennand explica com argúcia o processo criativo de suas esculturas e pinturas uma produção que considera pouco valorizada, citações dos seus diários, na voz da atriz Hermila Guedes, dão vazão a preocupações metafísicas da sua existência, como o legado de sua obra e a presença da morte. O texto de Rafael Lessa, compilado a partir das elucubrações de Brennand, revelam um artista com um mundo interior em eterno processo criativo. Apesar de já estar com 80 anos durante as filmagens, a idade nunca foi problema para ele, Não me preocupo porque somos vários, confessa. Com desenvoltura e raciocínio cristalino, Brennand se mostra um homem bem humorado, mas que não esconde uma tendência à autoglorificação, numa demonstração de que seu ego é proporcional às suas ambições como artista e intelectual. Além da apresentação de suas obras recentes e de fases mais antigas, o documentário é quase uma aula sobre o que ele faz, apesar de não ser nem um pouco didático. Brennand não esquece de pagar tributo às pessoas que mais o influenciaram. Talvez os momento mais tocantes, onde mais se abre intimamente, sejam a leitura da carta do pai ou quando se refere ao pintor Paul Gauguin, outro artista recluso, ao reproduzir o nome de uma das mais famosas obras do artista francês, o mural De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Bem elaborado, o documentário se destaca não só pela maneira como articula o discurso de Francisco Brennand como a revelação de sua relação com jovens modelos que lhe serviram de inspiração, por exemplo, mas igualmente pela excelência de sua realização. Entre os vários destaques de Francisco Brennand, vale ressaltar a direção de fotografia de Walter Carvalho (toda captada com luz natural), a trilha sonora de Lucas Marciere e a montagem sem arestas de Lívia Arbex.

 

 Caderno C

Cinema

Francisco Brennand (Brasil, 2012), de Mariana Fortes. Com Francisco Brennand, Hermila Guedes. O universo de Francisco Brennand. Cinema da Fundação: 17h10 (dom); 17h30 (sab); 18h45 (dom); 19h (sab); 19h20 (sex); 21h (sex). Documentário.

A Parte dos Anjos (The angel’s share, ING, 2012). De Ken Loach. Robbie descobre talento como degustador e bola um plano com seus amigos que pode render um novo começo. Cinema da Fundação – 15h20 (sex). Drama. 16 anos.

Amor (Amour, FRA/ALE/AUS, 2012). De Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. As dificuldades e os afetos de um casal de idosos. Cinema da Fundação – 20h20 (dom). Drama. 16 anos.

Pietá (KR, 2012). De Kim Ki-Duk. Com Min-soo Jo, Eunjin Kang. Cinema da Fundação – 15h10 (dom); 17h20 (sex); 20h40 (sab). Drama. 18 anos.

O som ao redor (BRA, 2012). De Kleber Mendonça Filho. Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings. Cinema da fundação –15h (sab). Drama. 16 anos.

 

 

:: Folha de Pernambuco

Grande Recife

Eu Mulher Eu Presidente da APL

Na terceira matéria, de uma série de quatro, a Folha de Pernambuco continua homenageando a mulher pernambucana. A escritora Fátima Quintas, a primeira mulher a presidir a Academia Pernambucana de Letras (APL), fala como galgou vários espaços na sua vida profissional. Filha de uma família tradicional e uma jovem mulher numa época cheia de preconceitos, ela confidencia que sua vida não foi fácil. Mas conseguiu chegar onde queria sem abrir mão de casamentos e um filho. À frente da APL há um ano, ela usa com maestria a criatividade para driblar as limitações financeiras da instituição.

“Sou do Recife, do bairro do Derby. Mas meu lugar de moradia foi no Rosarinho, onde cheguei com dois anos e só sai quando fui estudar no Exterior. Meus pais, a dona de casa Edith e o historiador Amaro Quintas tiveram três filhos e eu sou a do meio. Comecei meus estudos no Colégio Eucarístico e conclui no Colégio São José, onde fiz o ginásio e o antigo clássico. Em seguida, fiz Ciências Sociais na FAFIRE. Nessa época, resolvi trabalhar e consegui transferir o curso para Universidade Federal de Pernambuco, onde conclui em 1966. 
A opção pelo curso de Ciências Sociais veio da minha preocupação com a questão da sociedade. As injustiças sociais, como era essa sociedade tão complexa, como o processo social era coercitivo, e como a gente vive sendo atores sociais. O comportamento das pessoas, a hieraquia, essa estratificação social. Nós somos os personagens no palco da vida.Tudo isso sempre me chamava atenção. Eu queria fazer Sociologia, mas na época o curso ainda não existia aqui. Mas existia o de Ciências Sociais, o que foi muito melhor, porque eu tive uma visão mais ampla da sociedade, ao fazer as cadeiras de Antropologia, Economia, Estatística.  
Na verdade, eu não sou socióloga, eu sou antropóloga. No curso eu me seduzi pela Antropologia, por sua metodologia, pela forma de entender a sociedade de uma maneira mais vertical, de mergulhar nos problemas em vez de conhecer através de questionários. Eu creio que me seduziu porque o antropólogo costuma ter diários de campo, ele costuma descrever a sociedade de uma maneira muito detalhada. 
Quando terminei o curso, fui fazer pós-graduação de Antropologia Cultural, em Lisboa, Portugal, ficando lá por sete anos. Também lá me casei com um português. Foi uma experiência muito positiva em todos os sentidos. No aspecto de conhecer a Europa e pela experiência de viver sozinha, pois eu era muito apegada a minha família. A vida em Portugal era muito dura, pois o dinheiro era curto. Um dia resolvi trabalhar e procurei emprego numa livraria que nunca tinha contratado uma mulher, fui uma pioneira como vendedora de livros. Na época, foi um choque para todo mundo, principalmente para a família do meu marido que era muito conservadora. Resolvemos voltar para o Brasil e logo depois ele ficou doente e veio a falecer. Esse casamento durou 11 anos e não tivemos filhos.  
Assim que voltei de Portugal já comecei a trabalhar na Fundação Joaquim Nabuco como pesquisadora e lá fiquei por 37 anos. Entrei para o Departamento de Antropologia onde cheguei a ser diretora por uns 12 anos. Na época de Collor, eu tive que escolher entre ser professora da UFPE e a Fundação. Optei pela  Fundação, isto porque a minha vocação é para a pesquisa. Hoje ensino na Faculdade Marista as cadeiras de Sociologia e Antropologia. 
Nessa época, comecei a escrever crônicas periódicas para jornal. Mauro Mota quando via meus textos dizia: ‘Menina você vai longe’. E levava meus textos para os jornais. Mas desde 1987, eu escrevo semanalmente em um jornal local. Já a minha tese de mestrado em Antropologia, que versava sobre ‘Sexo e Marginalidade - Estudo da Sexualidade Feminina em Camadas de Baixa Renda’ virou meu primeiro livro publicado pelas Vozes, em 1984. A Literatura é minha grande paixão, eu gosto de ser reconhecida como escritora e já tenho 36 livros publicados. Voltei a me casar com um espanhol que era padre jesuíta e tivemos um filho que hoje tem 28 anos e é advogado. Tive dois casamentos mas nunca mudei o meu nome, o que foi visto como um pioneirismo para a época. 
Minha entrada na Academia é uma história interessante. Um dia Maria do Carmo Barreto Campelo me telefonou dizendo que tinha uma vaga na Academia e queria que eu preenchesse. Ela me conhecia dos eventos que eu realizava na Fundaj. E ela dizia que me admirava pelos meus livros, pela forma como eu conduzia os seminários e, sobretudo, quando eu lia um texto. Eu pedi à ela 24 horas para pensar. A vida é luta e eu sempre fui de lutar muito pelo que eu queria, porque nada meu foi dado.  E resolvi aceitar o desafio e estou aqui desde 2003, ocupando a cadeira 31, cujo patrono é Manuel de Oliveira Lima. Desde que entrei, estou tentando dinamizar a instituição e isso chamou atenção de todos. E no ano passado fui eleita por aclamação a primeira mulher presidente da APL. 
Há um ano na presidência, consegui dar um dinamismo que tanto desejava. Meu projeto maior é ‘Academia de Portas Abertas”. Acho que consegui abrir um pouco. O grande problema da Academia é a questão de verba. Já fiz vários lançamentos de livros; convidei Ariano Suassuna para fazer uma Aula-Espetáculo; criei o projeto “Em tom de conversa’ que é um batepapo com escritores; em parceria com o Conservatório realizei o projeto ‘Música e Letra’; estou tentando criar uma Associação de Amigos da Academia; lancei o primeiro suplemento literário da APL; criei uma coleção chamada Debate,que já está no terceiro volume, que é o registro dos seminários chamados ‘A obra e a vida do pensador’; também foi ministrado um Curso de Português Intensivo dirigido a professores da rede pública e que vai ser repetido esse ano devido a grande procura. Vale registrar que hoje a APL só tem como verba de subvenção oriunda do Governo do Estado, que é básica e estruturante. Estou levando alguns projetos para tentar uma verba também junto ao Governo Municipal. Porque gostaria que nesse segundo ano da minha gestão voltar a abrir o museu e a biblioteca, e também abrir as portas da Academia Pernambucana de Letras para a população.”

 

Programa

Quatro vezes Pernambuco

O número não é superlativo, mas é muito significativo para o cinema do Estado

Talvez muitos ainda não tenham se dado conta de que esta é uma semana histórica para o cinema pernambucano. Entre hoje e a próxima quinta-feira temos quatro longas-metragens do Estado em cartaz na Cidade. O que há de diferente nisso? O ineditismo. O que representa? Um indício de profissionalismo no quesito da distribuição das produções, e sensibilidade por parte do circuito exibidor local. 
Se há 18 anos era difícil imaginar a realização de um longa em Pernambuco, ter quatro deles no circuito comercial era impensável. Aliás, no cinema São Luiz, onde hoje está em cartaz “Filme Jardim Atlântico”, de Jura Capela, e “Era Uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, - há exatos 18 anos era “O Profissional”, filme de ação do francês Luc Besson, quem ocupava o espaço. 
O Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, que tem em sua grade “O Som ao Redor”, de Kle­ber Mendonça Filho, e estreia “Francisco Brennand”, de Ma­riana Fortes (leia mais ao la­do), nem funcionava regularmen­­te em 1995; mas projetou na­­quele ano a trilogia das cores do polonês Krzysztof Kieslowski. 
O que chama a atenção, entre­tanto, é que os espaços responsáveis pela exposição dos quatro longas-metragens são salas públicas do Governo do Estado e do Governo Federal, respectivamente. O que não significa que os títulos pernambucanos estão expostos ali por benevolência, e sim por competência. 
Se “Francisco Brennand”, por exemplo, foi eleito o melhor filme pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (A­brac­cine) e levou o prêmio Itamaraty na 36ª Mostra de SP, “Era uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, foi eleito melhor filme no 45ª Festival de Brasília. 
E se “Filme Jardim Atlântico” chamou atenção na IV Semana dos Realizadores no Rio de Janeiro, “O Som ao Redor” levou dezenas de prêmios pelo mundo e está em destaque na mídia brasileira há exatos 15 meses (com Mendonça, em breve, participando no programa “Esquenta!”, da Rede Globo). 
Para reforçar a importância deste momento, tal configuração, de quatro filmes de uma mesma região em cartaz simultaneamente, é rara até para os estados tradicionais na produção cinematográfica brasileira, leia-se Rio e São Paulo. 
O próximo desafio é ter quatro filmes pernambucanos em cartaz no circuito comercial privado de cinema. Dos títulos mencionados aqui, os de Mendonça e Gomes chegaram lá, em datas distintas, mas no Recife tiveram vida curta. Já é, de toda forma, um começo; e esperamos não ter de esperar mais 18 anos para atingir a próximo vitória.

 

 Programa

Sobre Brennand

O filme, em cartaz no Cinema da Fundação, nasceu do desejo de Mariana em contar a história do artista plástico e sua relação com o ateliê no bairro da Várzea, Recife, onde vive há mais de 40 anos. Além de revelador, “Francisco Brennand”, tem como mérito imprimir, com a fotografia discreta de Walter Carvalho e as músicas suaves de Lucas Marcier, a atmosfera precisa para encorpar o espectador ao universo único do artista. É a comunhão entre o ritmo de Brennand – aos 75 anos – que torna o documentário coerente, logo, pertinente. Não à toa, um dos momentos mais marcantes do filme mostra o artista sentado a uma cadeira enquanto, apoiado em sua inseparável bengala, observa e se surpreende com uma pintura sua antiga. Ao final, com um único e belo plano, Mariana nos faz lembrar da beleza e importância das criações do tio-avô que, de tão impregnada à cultura pernambucana já não se desassocia do cotidiano urbano do Recife.

 

Programa

Cinema

Francisco Brennand / De Mariana Fortes / Com Francisco Brennand e Hermila Guedes. O documentário comemora os 85 anos de Francisco Brennand e revela todas as facetas deste artista múltiplo, que pinta, desenha, modela, esculpe, fotografa, escreve literatura e transformou, nos últimos 40 anos, a antiga fábrica de cerâmicas de seu pai não só em um espaço de seu trabalho, mas, sobretudo em um lugar único do mundo. Cinema da Fundação: 19h20, 21h (sex) / 17h30, 19h (sab) / 17h10, 18h45 (dom) / 17h30, 21h (ter) / 15h10, 18h45 (qua/qui). Livre

Pietá / de Kim Kin-Duk. / Com Min-sonn Jo, Eunjin Kang, Jae-rok Kim. “Pietá” tem como personagem principal um cobrador e agiota sem remorso em relação aos seus métodos de cobrança. Um dia, chega uma mulher afirmando ser sua mãe perdida. A relação entre ambos desafia todos os sentidos do espectador. Cinema da Fundação: 17h20 (sex) / 20h40 (sab) / 15h10 (dom) / 15h30, 19h (ter) / 16h45 (qui). 18 anos.

A Parte dos Anjos / De Ken Loach / Com Paul Brannigan, Gary Maitlend, Jasmin Riggins, William Ruane. Robbie é um rapaz do subúrbio de Glasgow, perseguido pelo seu passado de delinqüência, que está prestes a se tornar pai. Após escapar da prisão em um julgamento, é forçado a prestar serviços comunitários, quando conhece outros jovens problemáticos e Henry, que se torna seu mentor e o inicia na arte do uísque. Cinema da Fundação: 15h20 (sex) / 16h45 (qua). 16 anos.

Amor / De Michael Haneke / Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Cinema da Fundação: 20h20 (dom/qui). 14 anos.

O Som ao Redor / De Kleber Mendonça Filho / Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings. Cinema da Fundação: 15h (sab) / 20h20 (qua). 16 anos.

 

 :: Diário de Pernambuco

Viver

O homem à frente da obra

Documentário sobre Francisco Brennand destaca mais o que pensa o artista do que a sua criação

Ao escolher o nome Francisco Brennand como título de seu filme, a cineasta Mariana Brennand Fortes deixa explícito que o tema em questão é o artista, mais do que a obra. A opção fica clara ao longo do documentário, que o retrata diante da câmera em cerca de metade das cenas. Suas esculturas, murais e pinturas estão na tela, mas nada é aprofundado em seus significados. Mostrar o homem em seu estado atual parece ser a prioridade e é justamente aí que reside o maior problema do longa-metragem, em cartaz a partir de hoje no Recife.
Se ainda não foi feito um grande filme que construa uma interpretação cinematográfica da obra de Brennand, por que desperdiçar esta chance? Será que é mesmo tão importante registrar o cotidiano de um homem de 88 anos no lugar de mergulhar nas criações que o tornaram relevante para o mundo?
Apesar dessa opção mais personalista, o filme tem belas imagens da Oficina Cerâmica da Várzea e das esculturas do artista, registradas pelo diretor de fotografia Walter Carvalho, um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro, responsável pela plasticidade de Central do Brasil, de Lavoura arcaica e dos filmes de Cláudio Assis. Essas sequências, porém, são obstruídas pelas entrevistas com o artista e perdem sua fluência, além de serem acompanhadas por uma trilha sonora pomposa demais, que não corresponde à liberdade quase agressiva presente naquelas figuras feitas com barro e fogo.
As entrevistas e os trechos dos diários de Brennand, lidos pela atriz Hermila Guedes, possuem ricas informações sobre sua obra e não há como negar o valor do registro. A falha está na condução e na hierarquização dos dados. As pinturas de sua fase mais ousada ficam em segundo plano, enquanto quadros mais recentes (menos criativos) são apresentados em detalhes. O artista ainda é um bom pintor, mas ele será eternizado pelo estilo que criou e não por seus recentes exercícios pictóricos mais acadêmicos.
Em determinado momento, Brennand folheia uma série de pinturas (ou desenhos) que mereciam ser melhor vistos, pois são de um período revelador, mas pouco conhecido pelas novas gerações. Outra preciosidade do filme são cenas em Super 8 da época da construção da Oficina. O painel da Batalha dos Guararapes, localizado na Rua das Flores (Centro do Recife), ganha um plano-sequência deslumbrante, porém apresentado sem nenhuma contextualização. Por onde passou, o documentário tem dividido opiniões. É difícil avaliar se sua repercussão está no artista em si ou no filme. O projeto foi selecionado em importantes editais, tem gente séria envolvida e ganhou dois prêmios na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (um deles cedido por críticos de todo o país).

Saibamais
- Sobrinha-neta de Brennand, Mariana não foi a primeira diretora a produzir um documentário sobre o artista. Entre os cineastas que o filmaram anteriormente estão Fernando Monteiro (1977), Jayme Monjardim (1980), Guel Arraes e Geneton Moraes Neto (1989), Feli Coelho e Celso Giovani (1996), Olívio Tavares de Araújo (1998) e Liz Donovan (2000).
- Antes de Francisco Brennand, Mariana dirigiu o longa-metragem O coco, a roda o pneu e o farol, documentário sobre os coquistas do Amaro Branco, em Olinda. O filme está disponível em DVD. Ela fundou a produtora Mariola Filmes.

 

Colunas

João Alberto

O filme Francisco Brennand, de Mariana Fortes, estreia hoje no Cinema da Fundação.

 

Viver

Cinema

Francisco Brennand. Direção: Mariana Fortes. Elenco: Francisco Brennand, Hermila Guedes. O universo do pintor, escultor e ceramista pernambucana Francisco Brennand, que aos 85 anos decide romper o silêncio para revelar os segredos de sua arte dentro da Oficina Brennand. Cinema da Fundação. 19h20 (sex), 21h (sex, ter), 17h30 (sab, ter), 19h (sab), 17h10 (dom), 15h10 (qua e qui), 18h45 (qua, qui e dom).

Pietá. Direção: Kim Ki-duk. Elenco: Lee Jung-Jin, Min-soo Jo, Ki-Hong Woo. Violento, Kang-do leva vida é solitária, até que um dia surge uma mulher que afirma ser sua verdadeira mãe. Cinema da Fundação. 17h20 (sex), 20h40 (sab), 15h10 (dom), 15h30 (ter), 19h (ter), 16h45 (qui).

A Parte dos Anjos. Direção: Ken Loach. Elenco: Paul Brannigan, Gary Maitland, Jasmin Riggins, William Ruane. Rapaz do subúrbio de Glasgow que descobre talento real como degustador. Cinema da Fundação. 15h20 (sex), 16h45 (qua).

Amor. De Michael Haneke, Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Casal octogenário enfrentam problemas da idade. Cinema da Fundação. 20h20 (dom e qui).

O Som ao Redor.  Direção: Kleber Mendonça Filho. Elenco: Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W. J. Solha. A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do recife muda a vida dos moradores do local. Cinema da Fundação. 15h (sab), 20h20 (qua).

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