15 DE MARÇO DE 2013
Clipagem ASCOM
Recife, 15 de março de 2013
:: Jornal do Commercio
Caderno C
Para expiar toda a dor
Em 2011, o cineasta coreano Kim Ki-duk, que já teve vários de seus filmes exibidos no Brasil, ganhou o prêmio da Mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, com o documentário Arirang. Em isolamento extremo, o cineasta purgava a emoção de ter quase causado a morte de uma atriz durante as filmagens de Bi-mong (2008). Recuperado, o cineasta também parece ter renascido artisticamente. A retomada de sua carreira deu-se no final do ano passado com Pietà, que venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza. O filme estreia hoje no Cinema da Fundação. A bem da verdade, Kim Ki-duk não mudou tanto assim, mas não há dúvida de que ele nunca foi tão contundente quanto agora. Seu novo longa causa impacto já a partir do seu cartaz, uma imagem, que não aparece no filme, em que o cineasta evoca a famosa escultura de Michelangelo em que a Virgem Maria carrega o corpo sem vida de Jesus Cristo. Em Pietà, Kim Ki-duk tenta captar essa dor imensa por meio de um encontro improvável entre um homem brutal e uma mulher que se aproxima dele. Surgindo quase do nada, ela confessa ser a mãe que o abandonou ao nascer, a culpada por ele ser aquele homem horrível e sem coração. Assim como o Kim Ki-duk de Arirang, Kang-do (Lee Jung-jin) vive isolado e sem amigos. Na casa abandonada onde mora, faz a própria refeição e deixa as entranhas dos animais espalhadas pelo chão do banheiro. Mas, esses detalhes são coberturas de sua intrínseca maldade, exercida como cobrador de um agiota numa favela de Seul. Todos os dias, ele verifica num caderninho quem ainda não pagou os empréstimos e sai para fazer a cobrança. Sua clientela, formada por gente pobre que trabalha com tornos mecânicos, sofre terríveis mutilações para pagar as dívidas. Eles assinam uma cláusula em que o dinheiro da invalidez será recebido pelo cobrador. Em pelo menos uma hora, Pietà flagela o espectador com um espetáculo de dor, humilhação e violência em que Kim Ki-duk se compraz em não aliviar a barra. Mas, como tudo tem um limite, o cineasta mostra o verdadeiro sentido do filme quando entra em cena essa mulher sem nome (Cho Min-soo), cuja tarefa será a de redimi-lo ao lhe dar amor e reeducar seus sentimentos. O que vem a seguir, no decorrer da relação estabelecida pelos dois personagens, é um filme de emoção contrastante e pleno de ambiguidades. Apesar desse percurso chocante e soturno, acentuado pela câmera na mão nervosa e uma imagem de tons esmaecidos (além de direção e do roteiro, Kim Ki-duk coassina também a fotografia e a montagem), que nos levam a uma sensação de claustrofobia insuportável, Pietà é um filme que se poderia chamar de comovente. Nesse sentido, é diferente, por exemplo, da poesia de Mother A busca pela verdade (Madeo, 2010), do também coreano de Joon-ho Bong, em que outra mãe-coragem move céus e terra para salvar o filho. Contudo, no fim, ambos os filmes mostram a mesma coisa: para uma mãe, a dor de perder um filho é incomensurável.
Caderno C
Cinema
Pietá (KR, 2012). De Kim Ki-Duk. Com Min-soo Jo, Eunjin Kang. A história de um agiota sem remorse que, um dia, conhece uma mulher afirmando ser sua mãe perdida. 18 anos. Cinema da Fundação – 16h30 (sex); 18h20 (dom); 20h40 (sex, sab).
A Parte dos Anjos (The angel’s share, ING, 2012). De Ken Loach. Com Paul Brannigan, Gary Maitland. Cinema da Fundação – 14h30 (sex, dom); 18h40 (sex, sab).
Amor (Amour, FRA/ALE/AUS, 2012). De Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Cinema da Fundação. 20h20 (dom). Drama. 16 anos.
O som ao redor (BRA, 2012). De Kleber Mendonça Filho. Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings. Cinema da fundação –16h10 (sab). Drama. 16 anos.
:: Folha de Pernambuco
Política
Cabo Anselmo torturou Eugênio, diz ex-perseguido
Romildo Maranhão afirma ter sido testemunha no DOI-CODI
Em depoimento à Comissão Estadual de Memória e Verdade Dom Helder Câmara, o ex-preso político Romildo Maranhão afirmou que o deputado federal Pedro Eugênio (PT), ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), foi torturado pelo Cabo Anselmo - ex-militar da Marinha que se tornou agente infiltrado das forças de repressão do Governo na época da ditadura militar. “Eu sou testemunha da tortura de Pedro Eugênio, me tiraram o capuz na sala de tortura e eu vi isso”, relatou o depoente, durante sessão pública da Comissão, no auditório do Museu do Homem do Nordeste, na manhã de ontem.
Romildo comentou que, durante a tortura conjunta de Pedro Eugênio e Maria do Socorro Diógenes (também ex-militante do PCBR), conseguiu identificar outros repressores. O ato aconteceu na sede do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). “Estavam Paulista, Peixinho e Miranda. Paulista, identificado como Cabo Anselmo, também fazia questão de se mostrar, não se escondia”, contou Romildo Maranhão.
O deputado Pedro Eugênio preferiu não confirmar a informação. Segundo o petista, há indícios significativos para entender que um dos torturadores era o Cabo Anselmo, mas por não tê-lo conhecido pessoalmente, não pode ter certeza. “Eu não vou desmentir Romildo. Não presenciei. Posso afirmar sobre Miranda, Osvaldo e Fininho que não faziam questão de se esconder. Mas se ele (Romildo) viu, e acho que viu, então o cara que achávamos que era o Cabo Anselmo, com sotaque sulista, despojado, tipo de cara que vai para a praia, pode ter realmente nos torturado”, explicou o parlamentar.
Segundo a relatora da Comissão Estadual, Nadja Brayner, a presença do Cabo Anselmo como torturador é uma novidade para o grupo. “Acho que foi excelente o resultado da audiência. Os depoentes nos colocaram questões que não tínhamos conhecimento. Tínhamos registros da atuação do Cabo Anselmo no ano de 1973 e não 72. E só o conhecíamos como infiltrado”, comentou.
A sessão pública teve como objetivo principal relatar os casos de ex-militantes do PCBR que constam na lista preliminar de mortos e desaparecidos políticos, como os secundaristas Ramires Maranhão do Valle e Almir Custódio de Lima, e a estudante de enfermagem Ranúsia Alves Rodrigues. Também foram discutidas as circunstâncias das mortes de outros integrantes do PCBR, como a professora Miriam Lopes Verbena e o estudante de Ciências Sociais Luís Alberto de Sá Benevides, que teriam sido vítimas em acidente de carro, em Caruaru, no ano de 1972, e do geólogo Ezequias Bezerra da Rocha (proprietário do carro onde estavam Miriam e Luís).
Programa
Vingança
Premiado em Veneza, “Pietá” estreia no Brasil
Há exatos 12 meses, o cineasta sulcoreano Kim Ki-duk encerrava as filmagens de seu 18º filme, “Pietá” (Coréia do Sul, 2012). Cinco meses depois ele teria sua première mundial no Festival de Veneza. De lá, saiu com o troféu Leão de Ouro de melhor filme, e hoje entra em cartaz nos cinemas do Brasil (no Recife, no Cinema da Fundação).
O nome de Kim Ki-duk não é estranho para quem já frequenta a sala do Derby. Lá, os habitués conheceram seus delicados “Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera” (2003) e “Casa Vazia” (2004). Mas cuidado aqueles que, tendo como referência estes dois trabalhos do cineasta, irão ver “Pietá” esperando algo leve e suave.
Da imagem da Pietá criada por Michelangelo, com Maria abraçando seu filho morto, o filme persegue apenas a ideia do sofrimento e sacrifício materno, pois não há nada de santo no protagonista Gang-Do (Lee Jung-Jin). Ele é um cobrador de empréstimos feitos por agiotas. Seus métodos de cobrança certamente farão alguns revirarem na poltrona do cinema.
Como a maioria não possui recursos para pagar a dívida de juros altos, Gang-Do recorre aos “acidentes” que provoca em seu clientes para receber o dinheiro das indenizações de seguros. Nessa brincadeira, o diretor exercita sua capacidade de torturar pessoas, que envolve mãos esmagadas, pernas quebradas, corpos em queda livre.
Em meio à violência, a misteriosa Mi-Son (Jo Min-su, ótima) aparece como mãe de Gang-Do. Responsabiliza-se pela conduta medonha do jovem em função de tê-lo abandonado sem amor e ainda bebê. Para hoje fazê-lo acreditar no que diz, a senhora vai sofrer na carne, e no sexo, a dor de ser uma mãe de um degenerado.
Há um questionamento constante no filme: “O que é o dinheiro?”, pergunta o filho. “É o começo de tudo e também é o seu fim”, responde a mãe. Por trás das relações quebradas e depois revividas - com a vingança sendo usada como fita adesiva - há essa crítica a falta de limites para o absurdo que move uma pessoa a partir do dinheiro dentro de um contexto familiar. Ainda mais se há amor materno envolvido.
“Pietá” ainda oferece um painel interessante de uma Seul periférica. O universo pobre e impiedoso dos subúrbios da cidade vem representando por um cenário opressor e personagens desesperados, o que ajuda na empatia e envolvimento do espectador. Para, além disso, Kim Ki-duk consegue ainda, no decorrer de seu filme, inverter a nossa empatia inclusive sobre o algoz e a vítima. É uma reviravolta bem articulada (o roteiro também é de Ki-duk) que poucos realizadores conseguem resolver sem escorregar na engenharia da trama e da narrativa. Veja, se tiver coragem.
Programa
Cinema
Pietá / de Kim Kin-Duk. / Com Min-sonn Jo, Eunjin Kang, Jae-rok Kim. “Pietá” tem como personagem principal um cobrador e agiota sem remorso em relação aos seus métodos de cobrança. Um dia, chega uma mulher afirmando ser sua mãe perdida. A relação entre ambos desafia todos os sentidos do espectador. Cinema da Fundação: 16h30, 20h40 (hoje) / 20h40 (sab) / 16h20, 18h20 (dom) / 14h30, 20h40 (ter) / 14h30, 18h20 (qua) / 15h50 (qui). 18 anos.
A Parte dos Anjos / De Ken Loach / Com Paul Brannigan, Gary Maitlend, Jasmin Riggins, William Ruane. Robbie é um rapaz do subúrbio de Glasgow, perseguido pelo seu passado de delinqüência, que está prestes a se tornar pai. Após escapar da prisão em um julgamento, é forçado a prestar serviços comunitários, quando conhece outros jovens problemáticos e Henry, que se torna seu mentor e o inicia na arte do uísque. Cinema da Fundação: 14h30, 18h40 (hoje) / 18h40 (sab) / 14h30 (dom) / 18h45 (ter) / 16h20 (qua). 16 anos.
Amor / De Michael Haneke / Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Georges e Anne são um casal de aposentados, que costumava dar aulas de música. Eles têm uma filha musicista que vive com a família em um país estrangeiro. Certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. O casal de idosos passa por graves obstáculos, que colocarão o seu amor em teste. Cinema da Fundação: 20h20 (dom/qui) / 16h20 (ter). 14 anos.
O Som ao Redor / De Kleber Mendonça Filho / Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings. A presença de uma milícia na zona sul do Recife muda a vida dos moradores do local. Ao mesmo tempo em que alguns comemoram a tranqüilidade trazida pela segurança privada, outros passam por momentos de estrema tensão. Ao mesmo tempo, casada e mãe de duas crianças, Bia tenta encontrar um modo de lidar com o barulhento cachorro de seu vizinho. Cinema da Fundação: 16h10 (sab) / 20h20 (qua) / 17h50 (qui). 16 anos.
:: Diário de Pernambuco
Viver
Pietá
Experiência torturante e final redentor
Filmes não servem apenas para divertir ou entreter. Alguns até fazem o público sofrer. Motivar reflexões ou retratar a complexidade da miséria humana é algo que também torna o cinema artisticamente rico. Pietá, dirigido pelo cineasta sul-coreano Kim Kim-Duk, que estreia hoje no Recife, é uma experiência torturante para a plateia, com um final redentor.
O protagonista é Gang-Do (Jeong-jin Lee), um agiota que vive a cobrar o pagamento de empréstimos feitos a mecânicos que trabalham em pequenas fábricas de peças em uma espécie de favela industrial de Seul.
Quem não quita suas dívidas, tem os ossos quebrados ou as mãos amputadas pelo cobrador. Ele transforma suas vítimas em deficientes físicos para ficar com o dinheiro do seguro social. O torturador começa a repensar seus valores quando surge em sua vida uma misteriosa mulher que diz ser sua mãe, desaparecida há 30 anos.
Kim Ki-Duk ficou conhecido com filmes mais relaxantes, pacíficos e meditativos, como A casa vazia (2004) e Primavera, verão, outono, inverno e primavera (2003). Ele radicaliza na direção oposta e adota um caminho seguido por diretores mais cruéis e fatalistas como Michael Haneke ou Lars Von Trier. Mas o desenvolvimento leva a um desfecho mais próximo da vingança e do arrependimento. Pietá venceu o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza em 2012. Seu maior concorrente era o norte-americano O mestre, de Paul Thomas Anderson.
Viver
Cinema
Pietá. Direção: Kim Ki-duk. Elenco: Lee Jung-Jin, Min-soo Jo, ki-Hong Woo. Kangdo quebra ou esmaga algum osso do devedor. Desta forma, o acidente receberá seguro de saúde que servirá para cobrir a dívida. Sua vida é solitária, até que um dia surge uma mulher que afirma ser sua verdadeira mãe. Cinema da Fundação. 16h30 (sex), 20h40 (sex, sab, ter), 16h20 (dom), 18h20 (dom e qua), 14h30 (ter e qua), 15h50 (qui).
A Parte dos Anjos. Direção: Ken. Elenco: Paul Brannigan, Josh Henshaw, Gary Maitland, Jasmin Riggins, William Ruane. Robbie é um rapaz do suburbia de Glasgow que descobre talento real como degustador. Cinema da Fundação. 14h30 (sex e dom), 18h40 (sex e sab), 18h45 (ter), 16h20 (qua).
Amor. De Michael Haneke, Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Georges e Anne passam por obstáculos que colocarão o seu amor em teste. Cinema da Fundação. 20h20 (dom e qui), 16h20 (ter).
O Som ao Redor. De Kleber Mendonça Filho. Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W. J. Solhs. A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do recife muda a vida dos moradores do local. Cinema da Fundação. 16h10 (sab), 20h20 (qua), 17h50 (qui).
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