09 DE FEVEREIRO DE 2013
Clipagem ASCOM
Recife, 09 de fevereiro de 2013
:: Jornal do Commercio
Opinião JC
Santa Maria
O incêndio de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi, a rigor, uma dupla tragédia, uma vez que martirizou centenas de jovens no próprio limiar da existência. "É duro morrer na primavera", como cantou Jacques Brel em memorável canção. É essa asfixia dos sonhos, esse contraste irrevogável, que torna mais terrível e elegíaca a tragédia da boate gaúcha. Oxalá que o episódio fique na memória apenas como emblema de um tempo que o Brasil quer superar. Que não se invoque a fatalidade ou o acaso! Não se consultem oráculos! Convenhamos que todos sabem o que de fato aconteceu. Não nos autoenganemos. Em Santa Maria, naquela boate, irrompeu, mais uma vez, o Brasil letal que queremos deixar para trás, o País que mais uma vez se mostra avesso a todas as práticas cidadãs. O Brasil que adia planejar-se, que não segue normas, que se acomoda, que prefere o brilho efêmero e vazio a gestos e atitudes que, a longo prazo, frutificam em paz e salvação. É o Brasil sem porta de emergência, literalmente sem saídas, preso na escuridão e no desespero. O País que é, como afirmou, no Twitter, o escritor pernambucano Luís Manoel Siqueira, "uma grande boate Kiss".De minha parte, não espero qualquer resposta. Veremos todos que mais uma vez ficaremos entre escuras versões. O que tento esperar, como muitos brasileiros, é que haja algum dia a reversão das condições perversas que geram uma tragédia como essa. Assim como o filósofo Adorno esperou, em notável ensaio, que depois de Auschwitz toda a educação fosse uma outra educação. Decerto que há vários responsáveis diretos pelo acidente de Santa Maria, mas não há como fugir à evidência de que somos todos, em maior ou menor grau, cúmplices do horror. Aqui e ali fazemos concessões, aqui e ali damos um jeitinho, calcamos e recalcamos uma pequena regra. Nosso imediatismo nos torna impacientes e nos faz como somos para em seguida, como Saturno, nos devorar sem piedade. No Brasil, o imaginário popular discrimina como de mau agouro e de mau gosto qualquer preocupação com o perigo e com a morte. A segurança é relegada em nome da estética e da mística convicção de que, mesmo sem trabalharmos com rigor, tudo no fim dará completamente certo. A fé ingênua de muitos e a má-fé de alguns dão-se as mãos em sinistro conúbio. A população se esquece de que viver, como diria Guimarães Rosa, "é muito perigoso" e de que "a alegria não é sem seus próprios perigos". O rigor das normas é letra morta, é uma sombra que queremos afastar de nossa vista. Por ironia ou simples consequência, terminamos por nos deparar com o inferno. Evitamos algumas rugas de preocupação e de honestidade para recebermos, em hora incerta, mas previsível, o inexorável beijo da morte. Até quando?
Paulo Gustavo é escritor e servidor da Fundação Joaquim Nabuco
:: Folha de Pernambuco
Não houve noticias sobre há Fundaj.
:: Diário de Pernambuco
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