02 DE JANEIRO DE 2013
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Recife, 02 de janeiro de 2013
:: Jornal Do Commercio
Não houve noticias sobre há Fundaj.
:: Folha De Pernambuco
Não houve noticias sobre há Fundaj.
:: Diário de Pernambuco
Do mundo o quintal de casa
Primeiro longa de Kleber Mendonça faz perfomance surpreendente e pode bater o recorde de espectadores do cinema pernambucano
Com estreia nacional marcada para sexta-feira, a produção pernambucana O som ao redor tem chamado a atenção não só pela boa receptividade, mas pela trajetória inédita no cinema feito no estado. Exibido em quatro continentes - em março serão cinco, com estreia na Cidade do Cabo (África do Sul) - o filme se tornou o mais prestigiado em festivais do Brasil e o longa nacional que mais circulou no mundo em 2012. Na Europa, esteve em cinemas da Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Polônia. Desde que estreou em janeiro no Festival de Rotterdam, foi exibida em mais de 40 festivais, da Austrália ao Canadá. A propósito da estreia em Nova York, onde permaneceu em cartaz por quatro semanas, o The New York Times dedicou duas páginas para Neighboring sounds - título internacional do filme. Em dezembro, ele entrou para a lista dos dez melhores do mesmo jornal, ao lado de Tarantino e Spielberg.
No Recife, nave-mãe do longa e de seu realizador, Kleber Mendonça Filho, O som ao redor estreia no Cinema da Fundação (onde o próprio Kleber trabalha como programador) e no complexo Cinemark (Shopping RioMar), abrindo caminho para outras produções pernambucanas, como Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão. Na história do cinema pernambucano, ao menos das últimas décadas, o recorde de bilheteria é de 150 mil espectadores, obtido em 2005 por Cinema, Aspirinas e urubus. Coroado por público e crítica, a expectativa é que O som ao redor supere essa marca. Entre os mais otimistas, há quem cogite sua indicação ao Oscar 2014 de melhor filme estrangeiro.
Em setembro, durante a conversa que tive com Kleber Mendonça sobre a trajetória do filme e sua estreia no formato longa-metragem, na área de convivência do hotel JK (o QG do Festival de Brasília), fomos interrompidos por um barulho de britadeira. Terminamos no dia seguinte, após sessão especial de O som ao redor no Teatro Nacional. Mesmo exibido fora de competição, pois em agosto foi quatro vezes premiado em Gramado, o filme foi recebido como o melhor de Brasília.
Sem querer, a violência com que a britadeira interpelou a entrevista nos leva ao principal tema do filme de Kleber: a cidade como extensão do ser humano e suas contradições. O quadro fecha nos drama dos personagens, que pensam estar seguros entre quatro paredes. No entanto, os sons do Recife não respeitam propriedade pública ou privada. Assim como seus habitantes, que no ambiente urbano repetem sem querer hábitos arcaicos do coronelismo rural.
O passeio por gêneros cinematográficos e a recorrência de patologias sociais - por exemplo, rituais de submissão e embate entre vizinhos - são reconhecíveis em qualquer lugar do mundo, o que torna O som ao redor, literalmente rodado no quintal da casa do diretor, um filme universal. Para Kleber, a aceitação se explica porque o subtexto da história é o medo. “Ao mesmo tempo acho que as pessoas gostam porque é um filme caloroso e isso gera uma estranha tensão”.
Da ideia ao filme
“A melhor forma de aprender a fazer um filme é fazer um”. A frase, dita por Stanley Kubrick, ilustra a formação da grande maioria dos realizadores pernambucanos, da Kleber faz parte. Formado em jornalismo pela UFPE, desde o início dos anos 1990 ele conciliou as atividades de curta-metragista, crítico, programador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco e, mais recentemente, de diretor artístico Janela Internacional de Cinema do Recife.
O som ao redor já havia sido contemplado pelo Hubert Bals, fundo holandês para desenvolvimento de roteiros, quando o projeto foi aprovado pelo edital para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Depois vieram o aporte do Funcultura/governo do estado e Petrobras. A partir daí, foram três meses de preparação, 60 dias de filmagem, mais um ano e quatro meses de montagem e o mês de dezembro mixando e finalizando a cópia digital e 35 mm. O que justifica tanto trabalho?
“Cada vez mais tenho dificuldade de responder isso”, diz Kleber. “Certa vez me perguntaram se fazer cinema é um ato de pretensão e respondi que sim. É pretensioso no sentido de não há garantia de que aquilo vai dar em algo. Quando escrevi o roteiro senti que tive vontade de filmar cada cena. Depois que se submete aos fundos, tudo se transforma em dever de casa, numa missão que tem que realizar”.
Não é difícil identificar em O som ao redor inquietações semelhantes em seus filmes anteriores, principalmente Recife frio (2010) e Eletrodoméstica (2005) - deste último, inclusive, há três sequências refilmadas. “As ideias vêm de muito tempo, mas a vontade de fazer o roteiro vem de quatro anos atrás. Havia a cobrança do primeiro longa, mas não tive pressa. Quando me livrei de Recife frio e Crítico (longa documentário lançado em 2008) foi natural juntar ideias e iniciar o longa”.
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