Complexo cultural da Fundaj/Derby reabre após reforma

Em reforma desde 9 de fevereiro de 2015, o Edifício Ulysses Pernambucano, no Derby, um dos três campi da Fundação Joaquim Nabuco, retoma suas atividades mantendo suas características originais, mas repleto de melhorias para receber ainda melhor o público. Foram investidos mais de R$ 8 milhões, recursos do Ministério da Educação. A inauguração será dia 26 deste mês, às 18h30.
“Com a reabertura da Fundaj Derby devolvemos aos pernambucanos um dos maiores símbolos culturais do Estado, agregando ao espaço um polo de educação com a Escola de Inovação e Políticas Pública. Modernizamos equipamentos e toda a estrutura desse complexo de cultura, lazer e educação com o Cinema da Fundação e a sala de Exposição Vicente do Rego Monteiro”, Mendonça Filho.
O prédio volta ao funcionamento com acréscimo de tecnologias de ponta, como a garantia de energia ininterrupta para elevadores e equipamentos de combate a incêndios e a chegada de novos equipamentos educacionais e culturais, como a Escola de Inovação e Políticas Públicas (EIPP) e a Sala de Leitura. Eles se juntam ao tradicional Cinema da Fundação, ao Centro Audiovisual Norte e Nordeste (Canne), à Galeria Vicente do Rego Monteiro, à Massangana Produções Audiovisuais e Educacionais (MMP) e à Biblioteca Nilo Pereira.
A Fundaj do Derby também é sede da Unidade Central da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Meca) e da Coordenação Administrativa e Financeira (Coex). Todos esses setores retornam às suas sedes oficiais após realocação iniciada em janeiro de 2014 para os campi Casa Forte e de Apipucos.
Pavimentos
O térreo abriga a Sala de Leitura, a galeria Vicente do Rego Monteiro e o Centro Audiovisual Norte e Nordeste (Canne). Nesse pavimento há um pátio com jardim central para integração dos servidores com os alunos da EIPP e o público geral. No primeiro andar, ficam o Cinema da Fundação/Derby, a sala de exibição João Cardoso Ayres e a sala de conferência Aloisio Magalhães. No segundo andar, a EIPP.

Arquitetura
Graças aos vitrais feitos pelo arquiteto e artista alemão Heinrich Moser, os trechos de piso em ladrilho cerâmico e diversos outros aspectos contrastantes capazes de retomar a história do seu surgimento cerca de 80 anos atrás, o edifício é considerado, desde 1996, um Imóvel Especial de Preservação (IEP). O Ulysses Pernambucano é um exemplar da arquitetura protomoderna, um estilo arquitetônico de transição entre o que se praticava na época – o ecletismo – e o estilo que surgia e que iria dominar toda produção algumas décadas depois: o moderno.
Ele foi construído na década de 1930 para ser a nova sede da Escolas de Aprendizes Artífices, ponto inicial da criação de Escolas Técnicas no Brasil. Em 1909, a construção dessas escolas havia sido determinada em todas as capitais através de um decreto do Governo Federal. Seu objetivo era prestar assistência para jovens de classes sociais menos favorecidas, ensinando atividades como alfaiataria, carpintaria, marcenaria, sapataria, serralharia, artes gráficas e decorativas.
Com o passar dos anos, a maior necessidade de mão de obra qualificada para acompanhar o desenvolvimento industrial do Brasil naquela época foi reformulando e ampliando essas Escolas. Chegando a funcionar, em 1937, como Liceu Industrial de Pernambuco e, em 1942, como Escola Técnica de Recife.
No início da década de 1980, já como Escola Técnica Federal de Pernambuco (ETFPE) sofreu com enchentes no Rio Capibaribe e passou a funcionar onde hoje se encontra o Campus Recife do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), cedendo o espaço do Edifício Ulysses Pernambucano para a Fundação Joaquim Nabuco. Para batizar o edifício, a Fundaj escolheu homenagear Ulysses Pernambucano, médico psiquiatra, psicólogo e professor recifense que durante a sua vida defender as minorias marginalizadas da sociedade.
Programações
Cinema
O Cinema da Fundação/Derby volta ao convívio do público recifense depois de uma grande reforma - a segunda de sua história, que retoma suas características arquitetônicas originais, como as janelas que dão para o Rio Capibaribe e o jardim interno. A reabertura será em grande estilo, com Vidas Secas, um dos clássicos do Cinema Novo, de Nelson Pereira dos Santos, em cópia restaurada em 4k.
Nesta primeira semana de sessões gratuitas no Cinema da Fundação/Derby, o cinéfilo pernambucano terá a oportunidade de ver, pela primeira vez, seis longas-metragens do Cinema Novo, dois de Nelson (Vidas Secas e Rio Zona Norte) e quatro de Cacá Diegues : Ganga Zumba, Os Herdeiros, Joana, a Francesa e Chuvas de Verão, todos em versões restauradas, em cópias digitais DCP, algumas inéditas no país.
O jornalista e realizador pernambucano, Geneton Moraes Neto, um dos principais diretores ligados ao movimento do super-8 do Recife, nos anos 1970, também será homenageado com uma mostra de sua obra, digitalizada recentemente em 4k, pela Cinemateca Pernambucana. Seu trabalho será apresentado pelo critico e professor da USP, Rubens Machado Júnior, curador da mostra Marginália 70: o experimentalismo no Super-8 brasileiro (Itaú Cultural, 2001-2003).
O público também será brindado com uma mostra de documentários de cineastas pernambucanas acompanhada por uma mesa de conversa sobre a atuação da mulher na realização de filmes no estado, além da presença do projeto Alumiar de cinema acessível, com a exibição do clássico brasileiro O Canto do Mar. E, claro, o público infantil não foi esquecido. A animação de Historietas Assombradas será aberta com show de Carol Levy, contadora de histórias querida pela criançada.

EIPP
Marcando a inauguração da nova sede, a Escola de Inovação e Políticas Públicas da Fundação Joaquim Nabuco/MEC oferece 750 vagas em cursos e palestras totalmente gratuitos. As atividades serão realizadas entre os dias 2 e 6 de abril. Os cursos e workshops serão realizados das 8h às 18h. Já à noite, das 19h30 às 21h30, o público pode acompanhar as palestras diárias que serão promovidas até a quinta-feira. Abrindo a programação, a jornalista Daniela Arbex, autora do best-seller Holocausto brasileiro, eleito Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor Livro-Reportagem no prêmio Jabuti (2014), fala sobre jornalismo investigativo e a construção da memória no Brasil.
Quem também participa da semana de inauguração é a cientista da computação Camila Achutti, referência mundial na luta por mais mulheres na tecnologia e ganhadora do prêmio Women of Vision 2015, e a fundadora da Associação Afrobusiness Brasil, Fernanda Ribeiro, atuante no desenvolvimento de ações e programas para fomento da diversidade e inclusão econômica e social de temáticas de gênero e étnico-raciais. Elas conduzem a palestra Empreendedorismo e Juventude. As inscrições para concorrer às vagas dos cursos e workshops vão até o domingo (25) e podem ser feitas no site da Escola . Já as vagas para as palestras serão preenchidas nos dias dos eventos, conforme a ordem de chegada.
Sala Vicente do Rego Monteiro
Corpos existem e se distribuem no espaço. Ocupam lugares de lazer, de moradia e de trabalho. Lugares que são físicos mas também, em um mundo fundado em desigualdades, marcadores do quão diversas são as vidas e suas possibilidades. É com o objetivo de mostrar como a distribuição dos corpos se deu na região Nordeste, em particular em Pernambuco, levando em conta aspectos como cor da pele e classe social, que a exposição Raça, Classe e Distribuição de Corpos tem início na próxima segunda-feira (26), durante o evento de reabertura da Fundaj no Derby, que retoma suas atividades após investimento de R$ 8 milhões do Ministério da Educação para reforma.
“São imagens que registram e comentam, tenha ou não havido a intenção de seus autores, uma distribuição de corpos no espaço que alarga (para alguns) ou restringe (para muitos) aquilo que lhes cabe ou que lhes é possível projetar”, explica Moacir dos Anjos, pesquisador da Fundaj e curador da exposição.
A mostra é composta por imagens fixadas, ao longo de mais de século e meio, em suportes variados como pintura, fotografia, gravura, vídeo, cartão postal e até mesmo rótulo de cachaça. Em seu conjunto essas imagens atestam, direta ou indiretamente, um espaço geográfico e humano partido em raças e classes. Partição que implica uma certa distribuição de corpos brancos, pretos e mestiços em torno de diferentes ocupações e posições hierárquicas.
”Desde o período colonial, alguns desses corpos, dependendo da cor da pele ou classe social são destinados a lugares mais protegidos, hierarquicamente superiores aos demais. Principalmente para negros e índios são destinados lugares de trabalho duro, lazer escasso e moradia precária”, aponta Moacir.
Fazem parte da exposição obras pertencentes a a diversas coleções do acervo da Fundação Joaquim Nabuco, abrigadas no Museu do Homem do Nordeste, na Coordenação de Artes Visuais e, sobretudo, no Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira – Cehibra.

Sala João Cardoso Ayres
Entre paredes derrubadas, tapumes e poeira: o teatro. Assim nasceu o documentário “Roteiro para construir EUdifícios”, que será exibido na Sala João Cardoso Ayres na próxima terça-feira (27). A obra aborda a criação de personagens ficcionais, desde a estaca zero até sua primeira apresentação pública. O curioso termo “EUdifício” se refere ao fato de que tais personagens foram idealizados, construídos e levados ao palco pelos seus próprios criadores, neste caso, atores profissionais.
Esse processo de criação aconteceu durante um curso homônimo, tendo suas etapas registradas e reunidas no documentário. A própria reforma do edifício Ulysses Pernambucano que, ao custo de R$ 8 milhões liberados pelo Ministério da Educação, reestruturou completamente a sede da Fundaj no Derby, foi o mote para o formato e realização do curso, que aproveitou o cenário aparentemente caótico de um prédio em obras, como provocação criativa para os atores imaginarem seus personagens.
"O prédio já estava com paredes derrubadas e tudo mais, era um ambiente caótico, propício ao que a gente queria. E todos os atores já conheciam o local e entrar lá e ver o prédio revirado serviu de inspiração para construção dos personagens”, aponta Luiz Felipe Botelho, dramaturgo e diretor de Audiovisual da Massangana Produções Audiovisuais Educativas da Fundaj.
O curso foi encerrado com duas apresentações públicas dos resultados realizadas no interior do edifício, em ambientes em pleno processo de transformação. Vinte atores participaram do trabalho, desde recém-formados a veteranos com trabalhos importantes na cena local.
Tanto o documentário quanto o curso foram idealizados pelo dramaturgo Luiz Felipe Botelho e realizados pela Massangana Produções Audiovisuais Educativas (MMP/Fundaj) como colaboração com as atividades do Projeto Arte, Reforma e Revolução. Este projeto, criado pela Coordenação de Artes Visuais da Coordenação Geral Espaço Cultural Mauro Mota (COART/Fundaj), em 2015, pretendeu manter viva a memória da vocação de espaço cultural da Fundaj no bairro do Derby, durante os tempos de reforma.

Sala de Leitura
Do primeiro livro médico publicado sobre o Brasil, passando por obras da época das invasões holandesas, às Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre ilustradas com desenhos de Lula Cardoso Ayres. As obras raras que fazem parte da Biblioteca Blanche Knopf da Fundaj estarão expostas a partir da próxima segunda-feira (26), no Edifício Ulysses Pernambucano, sede da Fundação no bairro do Derby, que reabre as portas após investimento de R$ 8 milhões do Ministério da Educação.
As obras mais antigas datam do século XVII, caso da História Natural da Medicina (Historae Rerum Naturalium Brasiliae), que realiza um um estudo muito aprofundado sobre a fauna, flora, doenças e endemias encontradas no início da então colônia. “É uma obra de 1648 completamente ilustrada, é um estudo muito importante de tudo que foi encontrado na região naquela época. Trata-se do primeiro livro médico publicado sobre o Brasil”, destaca Albertina Lacerda, coordenadora do Centro de Estudos da História Brasileira da Fundaj (Cehibra).
Ao todo são nove obras raras que vão do período holandês até o século XX expostas em quatro vitrines. A época da invasão batava pode ser revista no livro Berléus, de 1647, retrata a época em que o conde Maurício de Nassau dominou e ocupou o nordeste, especialmente Pernambuco. “O livro relata os feitos de Maurício de Nassau, que chegou no Estado de Pernambuco com uma corte de artistas e cientistas registrando toda a natureza, fauna e flora. A obra foi feita após o tempo que ele esteve na região”, comentou Albertina Lacerda, destacando o título do livro é um termo abrasileirado do sobrenome do autor, Caspar van Barleus.
O público terá o prazer de conhecer ainda Castrioto Lusitano ou História da Guerra entre o Brasil e a Holanda, durante os anos de 1624 a 1654. A narrativa foca nas batalhas travadas entre brasileiros e holandeses no processo de expulsão dos invasores do território brasileiro, com referência a João Fernandes Vieira, de quem traz um retrato litografado. “Essa é a primeira edição do livro, de 1679. O livro é todo dedicado as batalhas e aos feitos memoráveis dos holandeses em Pernambuco”, pontua a coordenadora.
Técnicas e receitas de quitutes tipicamente europeus adaptados ao gosto e disponibilidade de ingredientes brasileiros também podem ser encontradas na exposição, na obra Cozinheiro Imperial nova arte do cozimento e do copeiro em todos os seus ramos, de 1839. "É o primeiro livro de culinária editado no Brasil Nele e vai além das receitas, aborda também mas também técnicas domésticas de etiqueta, conservação dos alimentos e higiene", ressalta Albertina.
A obra mais recente, mas não menos rara, é Assombração do Recife Velho (1955), de Gilberto Freyre, em exemplar com ilustrações de Lula Cardoso Ayres. O texto é dedicado ao sobrenatural e suas manifestações na cidade do Recife, em lugares como o Teatro de Santa Isabel. As imagens enriquecem a edição que foi limitada a 400 exemplares numerados e datados pelo autor e ilustrador.
Na Sala de Leitura do Edifício Ulysses Pernambucana, estão expostas ainda dezenas de publicações da Editora Massangana da Fundaj, divididas em dois eixos: Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre, mas englobando publicações com referência a Josué de Castro, Celso Furtado, pesquisas e álbuns.
O espaço também é ocupado por exemplares raros de livros publicados desde o século 17, que fazem parte do acervo da Biblioteca Blanche Knopf da Fundaj e possibilitam os visitantes de percorrerem parte da nossa história. As obras da Massangana disponibilizam temas exclusivos de várias áreas, produzidos por pesquisadores da Fundaj, além de livros sobre a nossa história, literatura, comportamento social.

Redes Sociais