A história dos bondes do Recife
Em mais de quarenta anos de serviço, os bondes elétricos trafegaram por entre as transformações sociais, econômicas, políticas e culturais da cidade do Recife, acelerando ritmos, encurtando distâncias, possibilitando encontros e passeios pelo centro e pelos arrabaldes mais distantes. O serviço de transporte público por meio dos bondes elétricos foi inaugurado em 1914, com evento festivo que contou com a participação de autoridades, como o governador Dantas Barreto, e da população, curiosa para ver o então considerado moderno e veloz meio de transporte administrado pela Tramways.
No final da década de 1940, sob o discurso da modernização da cidade, em nome do progresso, da fluidez do tráfego e mesmo da higiene, os bondes elétricos passaram a ser vistos como obsoletos. Foram substituídos pelos ônibus, também prestadores de um serviço de transporte coletivo. Mas, tanto os bondes como os ônibus, perderam a concorrência para o automóvel. O transporte público acaba por ser desvalorizado em relação ao transporte privado; lógica que, no Brasil, prevalece até os dias atuais.
Nos trechos de filmes documentais postados nas redes sociais da Fundaj, produzidos pela Pernambuco Films, podemos ver um pouco dessas vivências, experimentando uma viagem no tempo, onde paisagens, lugares e pessoas nos proporcionam o (re)conhecimento de um Recife de outros tempos.
Ao mesmo tempo em que reduziam as distâncias entre os bairros, os bondes elétricos também diminuíam a distância entre as pessoas, abrindo espaço para novas formas de sociabilidade. Apesar da divisão de alguns bondes em 1ª e 2ª classe, e da loré, compartimento de carga, também ocupado por passageiros que buscavam passagens mais baratas, eles se constituíram em espaços que possibilitavam uma convivência mais estreita entre os diferentes grupos sociais da cidade.
Mas, nem só a alegria da novidade motivava os passageiros. O perigo dos acidentes e atropelamentos rondava os seus trilhos. Movidos à eletricidade, com velocidade duas a três vezes superior a dos bondes de burros, esse moderno meio de transporte causou muitos transtornos no cotidiano da cidade. Descarrilamentos, batidas com automóveis, atropelamentos de pedestres, quedas. Muita gente morreu esmagada sobre os trilhos, outros caindo involuntariamente dos bondes. Os “pingentes”, aqueles que viajavam em pé na parte externa, pendurados nos estribos do bonde, não raro esbarravam nos postes próximos da linha, ou caíam nas curvas mais fechadas. Os jornais recifenses publicavam constantemente notícias sobre os diversos tipos de acidentes envolvendo os bondes e seus passageiros.
A despeito das críticas aos serviços deficientes prestados pela Tramways, do grande número de acidentes, dos incômodos e defeitos frequentes, da lotação exagerada, os bondes elétricos continuaram até os finais da década de 50 a constituir o principal meio de transporte da população do Recife.
*Texto de autoria do Coordenação-Geral de Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra) da Fundação Joaquim Nabuco
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