Conheça a verdadeira origem da cachaça
Por Marina Suassuna
Você já recebeu no whats app uma mensagem sobre a origem da cachaça, e das palavras 'aguardente' e 'pinga', como sendo uma invenção dos negros, que deixaram o melado azedar e consequentemente transformou-se em álcool?
Atribuída ao Museu do Homem do Nordeste (Muhne), a versão, de autor desconhecido, tem sido compartilhada defendendo a ideia de que o álcool em forma de melado azedo foi evaporando aos poucos e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome “pinga.” Quando a pinga batia nas costas dos escravos, marcadas com as chibatadas dos feitores, ardia muito, por isso deram o nome de 'água ardente.'
No entanto, a versão, na verdade, não passa de folclore. Quem explica a verdadeira origem da cachaça é o pesquisador do Muhne José Luiz Gomes da Silva. “É uma informação pouco precisa. O trabalho escravo era algo penoso e árduo, e naturalmente esse povo acabou tendo um envolvimento bastante efetivo com essa bebida. A cachaça era um resíduo desprezado da cana de açúcar e utilizada pelos escravos no preparo da carne do porco do mato, uma espécie de porco selvagem consumido como alimento. Conhecido como cachaço (macho) e cachaça (fêmea), o porco acabou inspirando o nome da bebida."
Ainda de acordo com ele, "os senhores de engenho passaram a recomendar o uso da cachaça como uma forma dos negros assimilarem melhor o trabalho árduo na produção da cana de açúcar, já que eles passavam horas e horas a fio atolados num massapé para a produção da cana. Ela era servida aos escravos logo nas primeiras horas do dia."
Segundo historiadores, a aguardente (coisa e palavra) já existia quando se começou a fabricar cachaça no Brasil. Em espanhol, "aguardiente" era termo usado desde 1406. Até hoje, um dicionário como o da Academia das Ciências de Lisboa informa que essa bebida é obtida pela “destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce”.
José Luiz Gomes completa: “A cachaça passou a ganhar muito status não só entre os negros, mas entre os extratos da Casa Grande, inclusive do ponto de vista comercial. Chegou-se um estágio em que praticamente não se fazia comércio de escravos na África sem que se utilizasse como moeda de troca a cachaça brasileira. Se, por um lado, a bebida favoreceu o prolongamento do comércio de escravos, movimentos libertários da mais alta relevância no país, como a Revolução Pernambucana de 1817 e a Inconfidência Mineira, foram comemorados com brindes de cachaça.”
Atualmente, cerca de 1.700 exemplares de cachaças compõem o acervo do Museu do Homem do Nordeste. Alguns deles podem ser vistos na exposição de longa duração do Muhne.
Redes Sociais