A emoção, o prazer e a loucura — a essência humana e as drogas no Seminário de Tropicologia
Por 51 anos ininterruptos, o Seminário de Tropicologia seguiu, nesta terça-feira, 29 de agosto, para sua 403ª edição. O objetivo de sempre — criar um ambiente interdisciplinar — foi ressaltado por Fátima Quintas, coordenadora do evento. "O Seminário de Tropicologia segue seus trabalhos exaltando a visão interdisciplinar da Ciência Social, na permanente busca de entender a sociedade e a cultura através de um múltiplo espelho com reflexos que se entrelaçam, produzindo uma visão identitária de um povo", introduz.
Com uma novidade na mesa de seminaristas — Maria Ângela Campello, nova integrante do quadro —, a conferência procurou discutir as problemáticas das drogas na sociedade com a palestra "Entre a Disneylândia e a Cracolândia", ministrada pelo psiquiatra José Carlos Escobar, cuja vivência lhe permite um olhar mais humano sobre o tema, com um pensamento forjado no dia a dia do trabalho clínico, voltado a visão social.
A relevância do tema é percebida quando Escobar argumenta a presença das drogas na sociedade de todos os tempos, acompanhando a humanidade. De fato, estima 10 mil anos da figura das drogas na história humana, explicando que não há referências a guerras e fatos históricos relevantes quando as substâncias eram legais. Faz um paralelo, então, com o movimento internacional pós-Primeira Guerra Mundial, quando a abolição das drogas começa a ser incentivada.
Escobar questiona, então, a capitalização da droga a partir de sua ilegalidade, contestando a cadeia do lucro. "Quem ganha mais dinheiro na proibição é o traficante, o prestador de serviço. Eles começaram a capitalizar a droga. A droga era uma coisa banal, mas no momento que você proíbe você cria a figura do traficante. A figura do traficante não é ninguém mais ninguém menos do que um fornecedor. E a lei de mercados diz que quanto mais difícil esse trabalho, maior é o lucro", problematiza.
O psiquiatra argumenta a transformação da droga em objeto perverso quando ela, na verdade, é enxergada como a possibilidade mais acessível de chegar ao enlouquecimento: coisa que, segundo o palestrante, temos necessidade. “Estamos falando de algo que está em nossa essência: a emoção, o prazer e a loucura”, explica ao apresentar cenários ao longo da vida humana em que somos expostos a formas de alucinações, como parques de diversões e brinquedos de criança que buscam a brincadeira com o psico — formas de provocar emoções, alterar a percepção sem substâncias.
"Isso leva a gente a pensar no que é inútil, absurdo e vazio que se chama de combate às drogas", completa, afirmando que a droga está sintonizada com a contemporaneidade, dentro da sociedade e da cultura. "Nós temos uma prática absolutamente esquizofrênica em relação às drogas".
Esse olhar reprimido sobre as drogas é compartilhado pela seminarista Virgínia Leal, uma das primeiras a comentar a palestra de José Escobar. "O olhar sobre a Cracolândia é extremamente perverso", critica, atrelando o mesmo ao discurso fundamentalista de ódio e vingança.
A palestra também foi aclamada pelos demais seminaristas, entre eles Abraham Sicsu, Clemente Rosas e Clóvis Cavalcanti, todos acreditando que a palestra foi intrigante e informativa. Fátima Quintas, coordenadora, complementa, pensativa: “A vida é isso, uma tentativa de sair do real”.
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