Último dia: I Colóquio Africano é palco do lançamento do livro "Nem Preto, Nem Branco: uma vida atípica", autobiografia do jornalista Ange Miguel do Sacramento
As cenas do documentário “Babá Paulo Braz- Conexão Ifê” abriram o último dia do I Colóquio de História da África Atlântica e Educação, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco. O longa mostra a visita do Babá Paulo Braz para a Nigéria, terra onde o seu avô, Pai Adão, nasceu. Ifê é um tradicional centro religioso e, segundo a crença do Babá, seria o berço da civilização. Produzido por Gustavo Almeida e Felipe Peres, o documentário tem a intenção de juntar os dois lados do Atlântico negro, mostrando de perto um pouco da cultura africana.
Logo após a exibição de “Babá Paulo Braz- Conexão Ifê”, foi realizado o lançamento do livro “Nem preto, nem branco: uma vida atípica”, autobiografia do jornalista beninense Ange Miguel do Sacramento. À mesa estavam Joana Cavalcanti, da Editora Massangana, Cibele Barbosa, pesquisadora da Fundaj e uma das idealizadoras do projeto Trocas Atlânticas, e Moisés Santana, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Com uma narrativa cinematográfica, a autobiografia começa de forma imagética, não somente de forma verbal, mas com fotografias da vida do jornalista. “O texto é muito instigante para o leitor, não somente por narrar uma história forte, mas porque a própria narrativa vai convidando através de duas metáforas”, revela Cibele.
A história de Ange Miguel, que hoje está com 96 anos e mora na Bahia, se confunde com a história do mundo. Nascido durante o período colonialista da França no continente africano, o jornalista logo cedo se mudou para a Europa. Apesar de fazer parte da classe média e de se considerar francês, Ange não escapou do preconceito. Capturado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, por, sorte, conseguiu escapar das mãos alemãs e voltou para a África. Contudo, o livro mostra as contradições de um negro vivendo naquela época e o processo, por conta da alienação europeia, da desafricanização.
Com vários cenários históricos se desdobrando durante a narrativa, o beninense se descobre africano e começa um processo de retomada cultural. “Essa vida atípica de trânsito que ele leva, de certa forma, deixa ele sem um território próprio. A partir do momento que ele volta para a África, ele busca o processo de reconhecimento”, afirmou o professor. Aos 80 anos, Ange decidiu morar no Brasil e conhecer a terra que se avó viveu durante o período da escravidão.
O I Colóquio de História da África Atlântica e Educação ainda contou com a participação dos professores Mario Maestri Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que apresentou o trabalho “A Nossa África Negra, um passado Reconquistado”, e Luiz Felipe de Alencastro, professor emérito da Universidade de Sorbonne e também da Fundação Getúlio Vargas, com o trabalho “África e Brasil: duas faces de uma História Atlântica.
O encerramento do evento ainda contou com a apresentação do grupo Voz Nagô, formado por sete mulheres escolhidas pelo percussionista Naná Vasconcelos para fazer a abertura do Carnaval do Recife e mostrar a intervenção feminina com os tambores.
Redes Sociais