Fundaj relembra passagem de Arraes na instituição, em 2004, em uma de suas últimas aparições públicas antes da sua morte em 2005
Miguel Arraes de Alencar: 1916-2016
Para comemorar o centenário natalício do ex-prefeito do Recife e ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes de Alencar, em 15 de dezembro de 2016, a Fundação Joaquim Nabuco relembra sua passagem pela Instituição por ocasião do Seminário Nacional O Golpe de 1964: quarenta anos depois. Miguel Arraes participou do evento como integrante da mesa “O Nordeste e o Golpe de 1964”, a qual estiveram presentes o ex-governador da Bahia Waldir Pires, o ex-governador de Sergipe Seixas Dória, o ex-ministro da Justiça Fernando Lyra, então presidente da Fundaj, dentre outros. Esta foi uma das últimas aparições públicas de Arraes, que veio a falecer no ano seguinte, no dia 13 de agosto de 2005.
A seguir, trechos selecionados do depoimento prestado por Miguel Arraes durante o Seminário, extraídos do livro 1964: o Golpe passado a limpo, publicado pela Editora Massangana em 2004:
- Confesso que resisti a ir falar no Rio, ontem; e a vir falar aqui, hoje, pois hoje é 31 de março. O Golpe para mim é 1º de abril, pois fiquei até a tarde de 1º de abril no Palácio do Governo, onde fui preso.
- Nós não devemos falar só nesse Golpe, nem isolá-lo nas falas e nas apreciações, porque este Golpe é um episódio, numa longa história deste País. Nós devíamos estar comemorando talvez outras coisas, outras datas, e olhando para elas para termos compreensão do significado do que se passa hoje, e podermos prosseguir na nossa luta.
- Venho aqui na esperança de que se comece essa discussão, pois se a ditadura prendeu, torturou, assassinou, ela fez um tipo de crime muito maior: foi calar o povo, passar uma esponja na nossa História, para que a juventude de hoje não tenha a compreensão e o sentimento das lutas travadas no passado, que são o arrimo e a base das lutas do futuro, por mais erros que ela possa ter, pois com erros também se aprende, quando se quer buscar o caminho de conquistar as bases desta grande nação.
- Os golpes se sucederam em função dessa contradição que se repete, que toma as tonalidades as mais diferentes, mas que permanece até hoje, e que não foi resolvida pelo Golpe...
- [...] fui o primeiro governador desse país a fazer sentar à mesa com proprietários rurais, fornecedores de cana, os usineiros de Pernambuco — contra os quais me elegi —, os sindicatos rurais, as Ligas Camponesas, e levar dois dias, dois dias e meio, discutindo, de manhã até a noite, para assinar o acordo no campo. Acordo que ainda hoje prevalece, com as mudanças que introduziram para retirar direitos, mas a espinha do acordo permaneceu para dar tranquilidade à zona canavieira e fazer justiça a uma centena de milhares de trabalhadores do nosso estado.
- Devo fazer justiça aos militares: tudo o que foi começado como estruturação da economia do País por Getúlio Vargas, os militares deram de certa forma continuidade. Não entregaram as riquezas do País, tentaram nacionalizar, e estatizaram mais do que deviam, mas não se pode dizer que tenham entregue a nossa economia. [...]. Eles esqueceram o povo, mas a economia, mesmo com os defeitos que tinha, eles procuraram administrar dentro de uma mesma política, de uma mesma direção e, por isso mesmo, o Golpe não foi completo. O Golpe fracassou para os americanos, de certa maneira. E quem completou o Golpe?
- [...] nós precisamos baixar essa bola e nos unirmos dentro de nossas divergências, para construir esta grande força, que possa resolver os problemas do nosso País, e construir esta grande nação. Paciência vamos ter. Paciência às vezes se esgota, mas vamos fazer o necessário para equilibrar esta caminhada, que, se vem torta, nós vamos consertar e colocá-la na reta, para chegarmos a construirmos o Brasil e resolvermos os problemas do seu povo.
Fonte: 1964: O Golpe passado a limpo
(Orgs): Rita de Cássia Barbosa de Araújo e Túlio Velho Barreto
Recife: Editora Massangana, 2014.
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