Sociólogos defendem a diversidade nas políticas públicas
Na última quinta-feira (4), as Ciências Sociais voltadas à formulações de políticas públicas foram tema de discussão no auditório Calouste Gulbenkian - localizado na Fundaj/Casa Forte. Durante período integral a instituição recebeu o “Colóquio Diversidade, Pluralismo e as Políticas de Educação, Cultura e Ação Social”. A atividade é uma aproximação entre a Diretoria de Formação e Desenvolvimento Profissional (Difor/Fundaj) e a Escola de Ciências Sociais Aplicadas de Durham (Reino Unido). Cerca de 80 pessoas estiveram presentes, entre elas o recém-empossado presidente da Fundaj, Paulo Rubem Santiago.
O evento contou com 7 apresentações de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros. A primeira delas foi do professor da Universidad de Costa Rica, Willy Souto. O costa-riquenho analisou a sociologia como instrumento de compreensão e mudança social com ênfase na América Central que, segundo o professor, tem existência esquecida pelos vizinhos latino-americanos. Além disso, ele defendeu o compromisso do professor/pesquisador com a militância social e política.
Willy Souto traçou um histórico do norteamento das Ciências Sociais na América Latina durante o século XX. “A preocupação das Ciências Sociais na América Central não foram econômicas, mas resolver as numerosas guerras civis e chegar a paz, como em Nicarágua, El Salvador e Guatemala”, disse. O professor listou alguns desafios da Sociologia latino-americana, como por exemplo: a citação exagerada de autores estrangeiros. “Por que citamos tantos autores europeus e norte-americanos quando estudamos a América Latina?”; a incapacidade de articular teorias diferentes, o abandono das questões ambientais e o propósito das pesquisas. “Quantos estudos viram efetivamente políticas públicas? A sociologia existe para resolver problemas da humanidade e não mofar em bibliotecas”, indagou.
O PLURALISMO NAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Num segundo momento ocorreu a mesa “Diversidade e Políticas Públicas: quais caminhos?”, com a participação de Gary Craig (Durham University), Alexandre Zarias (Fundaj), Moisés Santana (UFRPE) e mediação de Patrícia Bandeira de Melo (Fundaj).
Defendendo o multiculturalismo, a fala do professor britânico analisou as políticas imigracionais e o tratamento histórico dado a populações indígenas em lugares como Europa, EUA, Austrália e Canadá. Craig denunciou a limpeza étnica que essas populações sofrem em seus respectivos estados nações, não sendo reconhecidos como cidadões políticos.
Já o pesquisador da Fundaj Alexandre Zarias indagou o público no começo da apresentação “Gênero, desenvolvimento e políticas públicas”. “Imaginem o cotidiano de vocês caso os homens e mulheres tivessem o sexo trocado. Mudaria alguma coisa? Homens e mulheres tem o mesmo papel no transporte público? Agora imaginem essas questões caso você fosse um gestor público”. O estudo exposto se ancorou em dois casos. O primeiro foi a regulamentação da Ponte do Maduro, no bairro de Santo Amaro, onde as mulheres foram impedidas de responder o questionário socioeconômico, logo não tiveram títulos de posse emitidos, de onde se considerava “imóvel vazio.”
No segundo momento o professor falou da experiência no Curso de Especialização em Gênero, Desenvolvimento e Políticas Públicas - realizado pela Fundaj, Secretaria da Mulher e UFPE. O curso aconteceu em Recife (60 alunos) e Caruaru (44 alunos) e visou a formação de gestores públicos capacitados às questões de gênero. Dentre os trabalhos de conclusão de curso o tema mais pesquisado foi “Gênero e Violência”.
RACISMO INSTITUCIONAL
Para finalizar a mesa, o professor do Programa e Pós-Graduação em Cultura, Educação e Identidades (UFRPE/Fundaj) Moises Santana discorreu sobre a diversidade e política educacional brasileira com direcionamento as questões raciais. Moisés falou da marginalização histórica e o racismo institucional sofrida pela população negra na história brasileira e movimentos de resistência, como o teatro experimental negro e a “imprensa negra” que surgiu com o jornal “O Quilombo” (1948-1950), de Abdias do Nascimento.
O professor Moisés Santana mencionou um trecho do artigo 134 da Constituição Brasileira de 1934, em que consta: “Incumbe a União, Estados e Municípios: estimular à educação eugênica”. Eugenia é uma teoria racial que defendia o qualidades e defeitos mentais associadas a cor da pele. Além disso, o professor comentou sobre a lei Afonso Arinnos (1951), primeira lei anti-racista brasileira, concebida porque uma bailarina negra norte-americana foi impedida de se hospedar num hotel de luxo no Rio de Janeiro. “Não surgiu de uma percepção, mas de um episódio externo” acusou.
ENCERRAMENTO
Durante a tarde, ainda houve a mesa “Identidade e Ativismo como questões como questões para as políticas de diversidade”, com os professores Andrew Orton (Durham University), Gillian Martin (Psicoterapeuta) e Joanildo Burity (Fundaj/Dipes). No fim da tarde um debate para aprofundamento das questões foi realizado.
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