Contaminação chega ao São Francisco
Constatação foi feita por pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco, a partir de pesquisas de campo no local e imagens de satélite
Os rejeitos de mineração da barragem de Brumadinho chegaram ao Rio São Francisco. A constatação é dos pesquisadores do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (CIEG), da Fundação Joaquim Nabuco. Eles realizaram trabalho de campo na área, quando coletaram amostras nos leitos dos rios São Francisco e Paroepeba, na represa de Três Marias, que, somadas às imagens de satélite, confirmam a contaminação. A poluição das águas por metais pesados e as soluções para o problema serão debatidas nos dias 28 e 29 deste mês no Seminário Pós-Brumadinho, que será realizado das 9h às 15h45, no Cinema do Museu, campus Casa Forte da Fundaj.
“Mapeamos a área com satélite e vimos uma água argilosa, um possível marcador de metais pesados. Essa água já pode estar sendo usada para consumo humano em alguns municípios”, ressalta o pesquisador da Fundaj Neison Freire, pós-doutorado em risco de desastres naturais. Quando Freire e Beatriz Mesquita, pesquisadora da Fundaj especialista em pesca artesanal, estiveram no local em fevereiro passado, o reservatório de Três Marias estava com 36% de sua capacidade, situação que ajudou a diluir os rejeitos e segurar um pouco mais sua chegada ao São Francisco.
No dia 8 deste mês, as imagens do satélite mostravam que os rejeitos estavam a apenas 23 km da margem direita da Represa Três Marias. Com base na velocidade de avanço da contaminação em 7,14 km/dia, os pesquisadores constatam que a contaminação chegou à represa no dia 12, diluindo-se a partir daí na massa d’água que se mistura com o leito principal do Rio São Francisco.
No seminário Pós-Brumadinho, será divulgada por Neison Freire uma nova nota técnica de pesquisa emergencial "Monitoramento Geoespacial dos Riscos de Contaminação do Rio São Francisco Pós-Brumadinho". Além de apresentar os últimos estudos desenvolvidos sobre a tragédia de Brumadinho, o seminário discutirá, sobre diversos pontos de vistas e áreas de conhecimento, o meio ambiente, a saúde pública, os recursos hídricos e a economia. “O seminário vai enfatizar como os desdobramentos de Brumadinho podem afetar o Rio São Francisco", ressaltou Freire.
A programação é composta por quatro mesas redondas. A primeira foca nos aspectos e repercussões territoriais do desastre. Será dirigida pela coordenadora do Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais e Territoriais (Cedist) da Fundaj, Edilene Pinto. "Essa mesa enfoca particularmente o Rio São Francisco, um dos mais importantes rios brasileiros. Abrange uma região que já é bastante sacrificada pelas condições climáticas que é o Semiárido brasileiro. Além da sua importância na economia devido a produção agrícola e de energia, a bacia do rio com seus afluentes garante a sobrevivência da fauna e flora de uma região que compreende três biomas: caatinga, cerrado e mata atlântica", disse.
O tema da segunda mesa será os múltiplos usos e riscos da água. O professor William Severi, do Departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) será o coordenador. O pesquisador da Fundação, João Suassuna, participa do debate explicando os processos de degradação ambiental no Rio São Francisco. "Os principais assuntos abordados por mim serão os esgotos que estão sendo lançados, o desmatamento, a progressão da cunha salina e os usos descontrolados das águas de subsolos e dos principais aquíferos", comentou Suassuna.
A penúltima mesa mostra como as pessoas estão vivendo na região do desastre em Minas Gerais, além dos impactos locais, ações e reações da sociedade. Será coordenada pela professora Cynthia Suassuna do Departamento de Ciências Jurídicas da Universidade Católica de Pernambuco. Participam desse debate Marlucia Pereira, Gerente de Desigualdades da Prefeitura Municipal de Pompéu, em Minas Gerais, Josemar Durães, do Movimento de Pescadores Artesanais de Minas Gerais e Carine Guedes Ramos, Coordenadora Regional do Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB/MG).
Já a mesa de debate sobre os impactos econômicos e sociais do desastre ambiental de Brumadinho será dirigida pela pesquisadora da Fundaj Isabel Raposo. "Passados dois meses da tragédia, é importante a gente lembrar que a extensão desse desastre infelizmente pode deixar sequelas de médio e longo prazos, caso se comprove a contaminação das águas da Bacia do São Francisco. Do ponto de vista econômico, várias cadeias produtivas que utilizam as águas dessa bacia como insumo de produção podem ter suas atividades comprometidas. Todo esse debate é fundamental para definir ferramentas que auxiliem no gerenciamento de riscos", disse.
Método inovador
Os pesquisadores do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (CIEG), criaram um método de medição de energia eletromagnética utilizando imagens dos satélites norte-americano LandSAT 8 e do francês Sentinel 2. Os pesquisadores escreveram e processaram um algoritmo de álgebra espacial que calcula a diferença de energia eletromagnética refletida pelo rio Paraopeba antes e depois do desastre de Brumadinho. Essa nova abordagem permitiu mapear com clareza a pluma de contaminação na água que não é visível aos olhos humanos.




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