Último dia de Seminário Pós-Brumadinho debate impactos socioeconômicos da tragédia
Evento mostrou em como as pessoas estão vivendo na região após o rompimento da barragem em Minas Gerais
"Mais um dia de debates para que possamos avaliar as possíveis consequências e incertezas envolvidas no caso Brumadinho. Ao mesmo tempo que ficamos tristes com a tragédia, também temos vontade de reagir, ajudar o próximo e de tentar mudar esse cenário. O intuito de hoje é trazer a fala da sociedade que vai trazer e expor o seu recado. Esse manifesto é muito necessário, além de mobilizar e cooperar com novas formas de resolução de conflitos", disse a professora Cynthia Suassuna, do Departamento de Ciências Jurídicas da Universidade da Universidade Católica de Pernambuco. Ela coordenou a mesa "Os impactos locais e (re)ações da sociedade", no Seminário Pós-Brumadinho - impactos para o Rio São Francisco, que aconteceu na manhã desta sexta-feira, no Cinema do Museu, em Casa Forte.
As repercussões judiciais do desastre na Procuradoria Geral do Estado de Sergipe foi o primeiro tema debatido na mesa redonda. Agripino Alexandre dos Santos Filho, procurador do Estado, ressaltou a importância de discutir e entender os desdobramentos do pós-Brumadinho e parabenizou a instituição em promover e gerar conhecimentos importantes para o desenvolvimento da população. "Não é só pelo fato em si, mas em tudo que ele representa para a sociedade. Uma questão considerada muito complexa e que precisa ser dialogada, discutida e resolvida de forma interdisciplinar.” Para ele, colocar-se no lugar do outro é o primeiro desafio, se doar e saber enxergar o problema. É visivelmente uma crise ambiental que desenvolve também a crise política, econômica, social e jurídica. “Fazer parte desse encontro na Fundaj, que é um centro de referência focado em realizar essas discussões , é um prazer,” afirmou.
O olhar dos pescadores que vivem e trabalham no local atingido pela tragédia também foi foco no encontro. O educador popular Josemar Alves Durães, que participa do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais, afirmou que a maior dificuldade é manter, garantir e cuidar da saúde dos rios. "Defendemos que a pesca não impacta ou prejudica no Rio São Francisco. Vivemos no local e sabemos a riqueza que o rio nos fornece. A mineração é a principal ameaça, além da poluição das cidades, os esgotos que não são tratados", comentou.
Além das dificuldades diárias, o ribeirinho agora também precisa conviver com o agravante dos problemas que a tragédia desencadeou. "A agonia é saber que os rejeitos de contaminação estão no rio e prejudicando nosso trabalho. Já estamos contaminados. Aliás, está muito claro que o rio já vem sendo contaminado a muito tempo. Morre peixe ali o tempo todo, e a gente como ribeirinho precisa tomar alguma providência", comentou o pescador artesanal.
O Movimento dos Atingidos pelas Barragens de Minas Gerais (MAB/MG), que nasceu no sul do Brasil e tem quase trinta anos de atuação, também marcou presença no encontro. A coordenadora do movimento, Carine Guedes Ramos, trouxe a temática das demandas das populações atingidas pelo desastre de Brumadinho para debater com o público. "Nosso compromisso é com todos os atingidos nesse processo, onde buscamos nos mínimos detalhes estruturar as famílias para cobrar seus direitos. O que apresentamos é que esse modelo de desenvolvimento não serve mais. Onde a energia hidrelétrica, o minério, o petróleo são produzidos sobre muitas custas sociais e socioambientais. No final, todo o lucro gerado é exportado ou fica para uma pequena parcela e para população só restam os problemas", explicou.
TARDE
Na primeira mesa da tarde, intitulada “Impactos Econômicos e Sociais”, o pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Luis Romani, questionou os parâmetros com que estamos lidando com a tragédia de Brumadinho. Ele apresentou um gráfico de respostas, gerenciamento e planejamento de riscos dos estados diretamente ligados ao Rio São Francisco. "Observa-se que é uma população carente, de baixa renda, e não tem planejamento para responder a uma ação como Brumadinho, ou qualquer outra", explicou. Segundo ele, grande parte do orçamento dos municípios depende de transferência de renda de entes maiores, como Estados e Federação. "Quantas dessas tem no estado e que podem chegar em outras bacias?" , completou.
Em seguida, a professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Aline Magalhães deu um enfoque especial no desastre de Mariana, em 2015, abordando a projeção dos impactos econômicos para a região. O ponto principal de seu estudo é capturar os efeitos da mineração, apesar de toda tradição do estado mineiro. Ela questiona: "O que ficou para as cidades com as atividades de mineração?" A partir dos danos dos desastres, propôs alternativas de desenvolvimento e minimizar impactos da atividade, como o uso imediato de recursos de multa e bloqueios financeiros, a retomada de estratégia de desenvolvimento e criação de um fundo regional para coordenar os esforços estruturantes para a diversificação produtiva.
O último palestrante do dia, que também encerrou as atividades do Seminário Pós-Brumadinho, foi o professor Fabrizio Listo, que trouxe imagens e estatísticas de processos erosivos, litologia e pluviometria média que impactam o São Francisco e seu relevo, sistemicamente falando. Ele relacionou as características das margens do rio com os impactos econômicos e sociais para os estados cortados pelo leito do rio.
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